IV Seminário Internacional

A ARTE DA BIBLIOGRAFIA

 

Resumos completos das conferências e palestras

Conferência: “O conceito de Bibliografia, ou os conceitos de Bibliografia”

 

Marilda Lopes Ginez de Lara (USP)

 

RESUMO: São examinados alguns dos principais conceitos de bibliografia do séc. XVI aos nossos dias, salientando-se a dificuldade de realizar o empreendimento sem um trabalho terminológico que demandaria um projeto a médio ou longo prazo. Não há conceito unívoco de bibliografia, mas, ao contrário, a convivência de inúmeras expressões e conceitos que coincidem, às vezes, com um repertório (simples ou complexo) e, em outras, caracterizam análises críticas bastante distantes dos primeiros. As variações não são poucas, como não o são igualmente as características dos produtos, e elas estão sempre relacionadas a determinados ambientes socioculturais e institucionais que determinam espécies de políticas de difusão. Um traço, não necessariamente explícito, mas compartilhado pela maioria dos conceitos que constituem a rede semântica ligada à Bibliografia – à exceção do Index Librorum Prohibitorum da Inquisição – é a função de mediação. Esta vincula-se necessariamente a compromissos institucionais que explicam os casos positivos e negativos da difusão. Procura-se trazer o tema à atualidade a partir de propostas identificadas no período, dando relevo ao vocábulo, às suas variações, ao produto bibliográfico, à atividade, à função e ao campo disciplinar. Nos dias de hoje, a denominação ainda não é consensual, particularmente no que se refere à delimitação do campo e às relações entre campos correlatos, situação que não é exclusiva da bibliografia e que marca todas as ciências e técnicas na contemporaneidade. Mais do que definir uma disciplina e verificar seus limites mútuos, propõe-se privilegiar temas relacionados à

bibliografia, como condição indispensável para que se exerça efetivamente uma postura que contemple o conhecimento como necessariamente construído no diálogo entre várias áreas.

 

Mesa 1 - Bibliografia e Biblioteconomia: elementos históricos

 

Palestra 1: "Com os olhos na história da Bibliografia na Idade Média tardia: obras de

François de Rabelais"

 

Vanildo Stieg (UFES)

 

RESUMO: Obras de François de Rabelais como possibilidade de discutir a história da Bibliografia na Idade Média tardia. Tematização realizada por meio de investigação de abordagem qualitativa - Histórico-cultural - cujo desenho metodológico consiste em pesquisa documental e bibliográfica. François de Rabelais e sua preocupação na produção de bibliografia orientada para a cultura popular. As contribuições dos estudos de Mikhail Mikhailovich Bakhtin na divulgação da bibliografia de François de Rabelais no ocidente e, em especial, no Brasil.

 

Palestra 2: “De indicibus librorum: a arte de indicialização em Conrad Gesner”

 

Andre Vieira de Freitas Araujo (UFRJ - Coordenador do Evento)

 

RESUMO: Leitura histórica de De indicibus librorum - seção constituinte das Pandectae (1548) de Conrad Gesner (1516-1565) - que versa sobre os critérios e a estrutura dos índices. Situa os problemas histórico-documentários que teriam conduzido à construção de índices de/para eruditos na Europa Moderna. Apresenta as motivações, procedimentos e técnicas (como ordenação e codificação) adotadas por Gesner para construção de índices de livros e os exemplifica.

 

Palestra 3: “Contribuições de Andrew Maunsell à catalogação”

 

Marcelo Nair dos Santos (UFES)

 

RESUMO: As contribuições de Andrew Maunsell quanto ao assentamento das entradas no catálogo e como elas foram dispostas em regras catalográficas da vertente angloamericana. O contexto histórico de Maunsell e como ele concebeu seu catálogo idealizando meios que foram apropriados posteriormente pela catalogação, os quais perduram ainda hoje nas regras que a regulam. Apontamentos conclusivos sobre o estado atual das contribuições de Maunsell na “Resource Description and Access” (RDA).

 

Palestra 4: “O gesto bibliográfico na invenção da história da arte (Século XVI)"

 

Giulia Crippa (USP)

 

RESUMO: Propomos uma discussão sobre duas compilações bibliográficas do século XVI: o quarto capítulo da Idea del tempio della pittura de Giovan Paolo Lomazzo (1591), dedicado aos “antigos e modernos escritores de arte” (Lomazzo, 1971, p. 34) e o capítulo “Preceitos de pintura transmitidos pelos antigos e os modernos”, do Tractatio de Poesi et pintura ethnica, humana et fabulosa collata cum vera, honesta et sacra de Antonio Possevino (1595).

Ambos os compiladores devem ser considerados, além do bem mais conhecido Vasari, como dois entre os primeiros que começam a elaborar abordagens sistemáticas de autores de arte, estruturando um novo campo de conhecimento através da produção de bibliografias. Esse estudo é de natureza histórica e se realiza através da leitura crítica das fontes originais, com a finalidade de entender as escolhas que, na literatura artística, estabeleceram as bases e marcaram as fronteiras dentro das artes, do campo conhecido como História da Arte. Giovan Paolo Lomazzo (1538-1600) foi um pintor maneirista que passou a se dedicar à teoria quando se tornou cego. Na compilação dele apresenta uma revisão bibliográfica desde a Antiguidade até sua época. O jesuíta Antonio Possevino (1533-1611), autor da Bibliotheca Selecta, é considerado o bibliógrafo católico mais relevante do século XVI. No texto aqui estudado, ele oferece uma bíbula biografia devocional sobre autores que tratam da arte figurativa de sua época.

 

Conferência: “Sapere aude (dizia Kant): a Bibliografia. Uma ordem do discurso no Século XXI?”

 

Attilio Mauro Caproni (Prof. Titular de Bibliografia /

Universidade de Udine e Florença)

 

RESUMO: A ciência bibliográfica ainda tem um papel no século XXI? A transformação do livro, de objeto tipográfico para documento digital (elétrico), propõe (e não somente na aparência) um entrelaçamento inusitado entre o texto, a leitura, os leitores na medida em que, uma relação dessa natureza, deve considerar bastante a expansão das redes informáticas (internet e mídia social, em particular) nos processos de disseminação do

conhecimento. É este, sintética e simplesmente, o teorema que esse pequeno ensaio propõe, sem esquecer que se questionar sobre o tema do conhecimento ecoa aquele apelo categórico através do qual, para citar Kant, é necessário ter claro aquele sapere aude: isto é, é necessário ter a coragem de saber, de conhecer, de usar a inteligência (e não se submeter ao conformismo que decorre de um uso impróprio das mídias sociais). A última parte do século XX, e os quinquênios atuais, viram surgir e progredir as redes lembradas, as quais aparentam privilegiar, de fato, para repetir, uma sociedade imersa nas mídias sociais para os quais a comunicação (em medida muito menor a informação) quer aparecer como valor que prevalece. Apesar disso, mesmo com a IV revolução da sociedade (isto é, com a chegada e disseminação do digital) estes pontos sintéticos devem ser considerados: 1. A cultura oferecida pelos textos não teria sido (frequentemente) colocada em risco se não houvesse a tradição da primeira disciplina do livro, que é responsável por preservar e promover o conhecimento do conhecimento (apesar da superficialidade de quem, hoje, acredita que nas redes se encontra tudo e de imediato)? 2. O que é o saber dos livros (aqueles… que permanecem)? 3. Hoje a chamada mídia social, que alcança a massa das pessoas (exaltando, frequentemente, sua bêtise), tem como reserva o querer dizer que há também um saber do não saber? 4. No tripúdio e no ruído da informática e da internet, os indivíduos estariam, talvez, perdendo sua vocação de homens de ciência, para se tornar (ai de mim) homens máquinas?

5. Acredito que também no terceiro milênio vale o princípio do eu penso, ainda para citar

o velho Kant.

 

Mesa 2 - Bibliografia e documentos: dimensões teóricas e aplicadas

 

Palestra 1: “A fundamentação epistemológica da Bibliografia entre Robert Estivals e Jean Meyriat: notas de um discurso francês”

 

Gustavo Saldanha (IBICT-UNIRIO) e Viviane Couzinet

(Université Paul Sabatier - Toulouse - França)

 

RESUMO: A construção dos modos de categorização da bibliografia na epistemologia informacional. O papel da epistemologia histórica. A luta bibliográfica da Bibliografia (a traição das classificações). A longa tradição epistemológica francesa sobre o discurso bibliográfico. As visões e as torções iniciais de Gabriel Peignot e Paul Otlet. A Bibliografia no tempo da institucionalização epistemológica francesa. A fundamentação epistemológica da bibliografia entre Estivals e Meyriat. O pensamento bibliográfico pós-classificação francesa dos anos 1990. A Bibliografia no espelho de Peignot.

 

Palestra 2: “A bibliografia endereçada a formação de professores alfabetizadores e formação de leitores no Espírito Santo: anos de 1960”

 

Neusa Balbina de Souza (UFES)

 

RESUMO: A perspectiva Histórico-Cultural Bakhtiniana como possibilidade teóricometodológica para o estudo no campo da Bibliografia. Bibliografia compreendida como fenômeno humano: produção Histórico-Cultural – enunciado concreto. Discute, por meio de pesquisa documental e bibliográfica, a bibliografia endereçada à formação de professores alfabetizadores e à formação de leitores no estado do Espírito Santo, anos de 1960, buscando compreender concepção de leitura e de leitor, difundida para orientar o ensino da leitura na escola primária capixaba, no período citado.

 

 “O espaço-tempo da Bibliografia e do documento: reflexões sobre epistemes e mediações”

 

Maira Cristina Grigoleto (UFES)

 

RESUMO: Trata o espaço-tempo da Bibliografia e do documento, pontuando a questão da materialidade e da estabilidade. Conduz reflexões sobre as epistemes histórica e científica no percurso constitutivo de saberes e práticas. Aborda a racionalidade e a regularidade nos processos de institucionalização. Entende a Bibliografia e o documento como dispositivos

de saber/poder/fazer (dispositivos de mediação) ao observar as características materiais e relacionais (produtos e processos). Direciona as reflexões no sentido de auxiliar na construção de entendimentos e na verificação das potencialidades de exploração da Bibliografia e do documento, atentando para os percursos de reconhecimento e possibilidades de alocações.

 

Palestra 4: “Modelos Conceituais Ontológicos para a Representação Bibliográfica de Recursos Multimídia na Web”

 

Rachel Cristina Mello Guimarães (UFES) & Daniela Lucas da Silva Lemos (UFES)

 

RESUMO: Organização e representação da informação e do conhecimento. Modelos conceituais como possibilidades de abstração e compreensão do universo bibliográfico. Ontologias de fundamentação como base ao processo de análise semântica de conteúdo bibliográfico. Modelos de anotação para representação de documentos digitais. Representação de documentos multimídia: dos metadados às anotações semânticas. Uma proposta de modelagem ontológica para o domínio de anotação de recursos multimídia na web.

 

 

Conferência: "Em sentido amplo e em sentido estrito" (R. Blum). Dinâmica

epistemológica entre Bibliografia e Biblioteconomia”

 

Andrea Capaccioni (Universidade de Perugia

 

RESUMO: A relação entre Bibliografia e Biblioteconomia mudou ao longo do tempo, especialmente desde o século XIX. Esta relação é particularmente complicada pela natureza da Bibliografia, sempre em busca de sua identidade. Na obra de Rudolf Blum, "Bibliographia. Eine wort und begriffsgeschichtliche Untersuchung (1969)", encontrasse uma visão interessante que pode ajudar a entender a relação entre as duas disciplinas. Rudolf Blum, analisando o trabalho de Charles-Victor Langlois (1863-1929), apontou que o bibliógrafo francês distinguiu "claramente entre Bibliografia em sentido amplo e estrito". A Bibliografia é entendida no sentido amplo quando se comporta como uma metadisciplina que engloba todas as disciplinas relacionadas; enquanto é considerada "estrita" quando trata de um escopo específico (por exemplo, o repertório). A evolução da relação entre Bibliografia e Biblioteconomia (e disciplinas relacionadas) pode, portanto, ser lida à luz desse alternância de estados que podemos chamar de "metadisciplinar" e "especialista".

 

Conferência de encerramento

“Ebert vs Schrettinger: da lógica cultural (Bibliografia) à logica bibliotecária (Biblioteconomia)?”

 

Fiammetta Sabba (Universidade de Bolonha)

 

RESUMO: Após a fundamental práxis bibliográfica de Gesner e após o fundamento cultural discutido por Naudé, que unificou exigências práticas e alicerces culturais, as evidências específicas e o amadurecimento teórico das duas disciplinas, Bibliografia e Biblioteconomia, passam a ser definidas e teorizadas, porém em uma perspectiva de contraposição e através de uma dialética científica apaixonada, por Friedrich Adolf Ebert e por Martin Wilibald Schrettinger.

© 2013 Ecce Liber: Filosofia, Linguagem e Organização dos Saberes. Desenvolvedor: Diogo Xavier da Mata.

Centro de Estudos Avançados em Ciência da Informação e Inovação (CENACIN - IBICT)

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