CANTO À MEMÓRIA INFELIZ: desigualdade e dialética das linguagens documentárias

Reconhecemos, em diálogo com o ponto de vista ricoeuriano, o argumento de uma “felicidade memorial” na práxis informacional: a recuperação da informação representa o potencial de uma “memória feliz” quando atende, dada a relação entre precisão e revocação, ao que foi procurado por um dado pesquisador, leitor, usuário. No entanto, sob outro ponto de partida, encontrando também, em certa medida, o ponto de vista de Ricoeur (2013) (tomando por base sua análise das ideologias na relação com o universo científico), identificamos o potencial de uma angústia na recuperação da informação, pautado pelo prisma da intencionalidade ideológica, tanto como integração como quanto dissolução, dilaceração.

A recuperação da informação (se pautada unicamente pela noção de “esquecimento” como método (ou seja, como positivação do potencial de “memória”, no duplo contraditório que fundamenta as margens de “felicidade” ricoeuriana quando vistas sob as lentes da organização do conhecimento), negligencia toda a escala de desigualdade presente na construção social de toda e qualquer linguagem documentária. Opera-se, pois, na contradição analítica esquecimento-memória não uma dialética, mas apenas a condição de ocultamento da flagrante distinção sócio epistêmica provocada pelos mecanismos de organização e busca da informação.

Em sua análise das relações entre ciência e ideologia, “cruzando” (em seus termos) o marxismo, sem afastá-lo, Ricoeur (2013) propõe partir da análise weberiana das ações sociais, como fruto da função de um comportamento dado a partir do comportamento do outro. De um modo geral, a ideologia é, neste movimento sob a alteridade, “função da distância que separa a memória social de um acontecimento que, no entanto, trata-se de repetir” (RICOEUR, 2013, p. 78, grifo nosso). Assim, é primitiva, segundo o teórico, em diálogo com o pensamento de Jacques Ellul, as relações evocadas por uma comunidade histórica e um certo ato fundador que a coloca enquanto memória desde a sua constituição, como a Declaração Americana dos Direitos, a Revolução Francesa, a Revolução Russa. Reúne-se, no discurso da memória, a busca pela conversão e a perpetuação de uma dada energia inicial para muito além da epifania de fundação da tradição.

Ocorre, pois, com o “acontecimento vivo” da ideologia a construção de uma base de motivação social, que simultaneamente (para além de um reflexo) justificação e projeto. Estes, por sua vez, são estruturalmente simplificadores e esquemáticos, na medida em que buscam um código, uma visão de conjunto. De sua função geral de integração social desdobram-se, no entanto, sua função de dominação. Nos termos ricoeurianos, “O que a ideologia interpreta e justifica, por excelência, é a relação com as autoridades, o sistema de autoridade” (RICOUER, 2013, p.82).

Em paralelo, pois, à condição de integração social como de legitimação da autoridade (demarcação justificada da dominação), outra dimensão ideológica é também tomada como sua função segundo a categorização ricoeuriana: a de deformação (RICOEUR, 2013). Trata-se da noção marxista propriamente dita. Definida por seu conteúdo, a ideologia representa aqui o conjunto de elementos que não permitem ao indivíduo reconhecer a si próprio, ou pautar-se pela alteridade ou, finalmente, perceber (para romper) a dominação instalada pela autoridade legitimada ideologicamente.

No cenário da organização do conhecimento, diferentes estudos demonstraram a condição ideológica de construção de linguagens documentárias e seus reflexos. É o caso das teses de Pinho (2010) e Simões (2010), que têm interesse em discutir os modos de representação da homossexualidade masculina nos instrumentos documentários, esta orientada para a compreensão do desenvolvimento da noção de “etnia” e seus desdobramentos categorias no contexto da Classificação Decimal Universal. Em uma posição crítica, orientada para a visualização da dialética que opera na relação memória e esquecimento, podemos apontar para a relação de esquecimento aqui presente como posicionamento político oriundo da construção de uma memória social legitimada por um agregado de discursos que representam a autoridade.

Neste sentido, o esquecimento é tomado, no âmbito da organização do conhecimento, como operador político da legitimação de uma memória ideologicamente condicionada: o potencial de recuperação da informação, ou seja, a relação pretensamente maquínica entre precisão e revocação responderia pela ampliação constante da desigualdade manifestada na impossibilidade de identificação de conteúdos não-hegemônicos em bases de dados, que também poderia ser chamada de uma “recuperação infeliz” (mas sob o pressuposto dialético). O esquecimento, aqui, é menos um método, e mais uma ação social orientada para a construção da autoridade através das lentes informacionais.

Um recurso teórico fundamental neste panorama dialético da recuperação da informação se encontra no discurso “desclassificacionista” de García Gutiérrez (2011), interessado pontualmente na compreensão de uma epistemologia capaz de superar as fraturas da desigualdade manifestas e multiplicadas pelas linguagens documentárias. Assim como Ricouer (2013), em diálogo com Weber e outras tradições que fundamentaram a noção de ideologia, o pesquisador espanhol indica a metonímica como ferramenta que identifica uma parte dentro de um conjunto.

Em sua crítica ao ponto de vista classificacionista ocidental, que incide diretamente no modo como estruturamos elementos teóricos e aplicados na organização do conhecimento visando à otimização da recuperação da informação, García Gutiérrez (2011) demonstra como o recurso metonímico é usado como uma ferramenta política de esquecimento. Trata-se de um princípio de redução metonímica que simplifica e fragmenta a pluralidade das expressões culturais, dissolvendo os processos de compreensão em sua amplitude e favorecendo a visão dominante de uma dada racionalidade estabelecida.

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Algumas fontes:

GARCÍA GUTIÉRREZ, A. Desclassification in Knowledge Organization: a post-epistemological essay. Transinformação, Campinas, v.23, n.1, p. 5-14, jan./abr., 2011.

PINHO, Fábio. Aspectos éticos em representação do conhecimento em temáticas relativas à homossexualidade masculina: uma análise da precisão em linguagens de indexação brasileiras. 2010. Tese (Doutorado). Recife: UFPE, 2010.

RICOEUR, Paul. La mémoire, l’histoire e l’oubli. Paris, Ed. du Seuil, 2000.

_______. Hermenêutica e ideologias. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

SIMÕES, Maria da Graça de Melo. A representação de etnia e a sua evolução na Classificação Decimal Universal. 2010. Tese (Doutorado). Salamanca (Espanha): Universidade de Salamanca, 2010.

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