ABRIR AS JANELAS DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO OU DESTRUIR SEUS MUROS

A reflexão é por uma produção de conhecimento que caminhe menos de acordo com o tempo e a força de um mercado castrador, e que seja capaz de se libertar da redoma da “Information Science” e de seus marcos representativos dominantes, na maioria das vezes pautados por discursos estrangeiros que, inclusive, desconhecem a realidade latinoamericana e, sobretudo, a brasileira. Abrir as janelas da Ciência da Informação significa proporcionarmos a nós mesmos, pesquisadores, a possibilidade de espiarmos o “mundo da vida”, desenclausurando-nos de uma “interdisciplinaridade” altamente disciplinar, dos efeitos “tóxicos” de uma tecnologia dos “cifrões”, das anestesias métricas que nos privam de tocar as imensas e dissonantes formas de gerar, sentir e ser informação.

Quando Bourdieu formula o conceito de habitus - referindo-se às ações práticas de todos nós, destituídas de um caráter consciente e deliberado, mas que, por outro lado, se reproduzem por meio da introjeção de limites e possibilidades dispostos nas posições sociais que ocupamos - sua preocupação é explicar o princípio das reproduções de conduta e poder nos diferentes campos que, por suas palavras, ganham ares de ciclo vicioso, sem muitas possibilidades de escape: “Sistema de disposições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, isto é, como princípio gerador e estruturador das práticas e das representações.” (BOURDIEU, 1994, p. 47)

Como reorientar um campo científico com todas as dependências estruturais de financiamentos, devoções a pesquisadores já consagrados, necessidade de garantir o status da área a partir da “modernidade” tecnológica, etc? Será que deixar de jogar o jogo não nos impediria de “existir”?

Voltemos ao debate entre Gramsci e Bourdieu. Talvez a maior diferença entre os dois autores sejam as suas expectativas quanto às brechas dos sistemas de reprodução. E como Gramsci, acreditamos: sempre há saídas! Apesar da concordância com a afirmação de Bourdieu sobre um campo científico “estruturalmente travado”, pensar dialeticamente suas estruturas é entendê-las em constante movimento - por mais que o movimento seja muitas vezes imperceptível e, por isso, as estruturas de tão longa duração. Assim, mesmo com todas as dificuldades de enxergarmos as possibilidades de transformação (em qualquer campo), elas jamais deverão ser desconsideradas.

A partir da acumulação de forças contra-hegemônicas (GRAMSCI, 1991), os poderes simbólicos e materiais que produzem violências podem sim ser combatidos. E daí a importância de uma nova geração de pesquisadores da CI muito dispostos a descolonizar condutas, destruindo os muros da informação condensada nos formais centros de ciência e atentando para a informação presente nas praças, feiras, esquinas e nos mais diversos palcos da vida, capazes de fabricar novas subjetividades e sentidos para o campo.

Nesse exercício de abrir janelas e golpear muros - aqueles capazes de capturar nossas imaginações e exercícios epistemológicos - vamos transbordando e (re)existindo em nossos olhares voltados para as ruas, que se afetam com os encontros, que exigem uma distribuição radical das possibilidades de falar, que propõem a reforma dos latifúndios da informação científica.

Está dada a nossa guerra de posições e as suas estratégias: denunciar privilégios, ocupar espaços, redistribuir possibilidades, alterar estruturas, preparar os contra-feitiços para desvelar toda a retórica ideológica de um campo que se evoca neutro: é tempo (mais que urgente) de escancarar as janelas da CI.


Algumas fontes

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