DAS RELAÇÕES ENTRE INFORMAÇÃO, LINGUAGEM E SÍMBOLO: primeiras tramas

Capurro pretende realizar um salto paradigmático. Ao abandonar a ideia de informação como uma substância fora da mente e olhar para o fenômeno da cognição humana como condição necessária para o que pode ser chamado de informação (CAPURRO, 1991, p. 3), ele assume, pautado na dimensão pragmática da existência humana, a informação como uma dimensão sócio-simbólica, ou seja, ele busca uma perspectiva pragmática e retórica. Esta foi a perspectiva explorada ao recuperar algumas noções de linguagem e símbolo.

Em linhas gerais, a intenção foi criar um espaço para discutir CI como um saber científico capaz de mediar, retoricamente, a relação do homem com o mundo por meio de estudos informacionais orientados pela perspectiva da informação enquanto linguagem-símbolo.

Acredita-se que uma racionalidade apropriada – “racionalidade retórica – seria “capaz de ‘dar conta da totalidade da experiência’, pensar a dimensão normativa, do absoluto, do necessário” (RHODEN, 2010, p. 154), reorientando filosoficamente o poder da linguagem para repensar a realidade.

Sendo a filosofia, segundo Rhoden (2010, p. 154), um todo com capacidade de articular diferentes racionalidades, a “racionalidade retórica”, nos moldes aristotélicos[1], “não se reduz à dimensão persuasiva, formal e externa da linguagem” e em certo sentido emerge como “um filosofar mais adequado à realidade humana” por ser “uma racionalidade aberta”.

Como não se pode reduzir o ser humano a uma mera máquina, a “racionalidade retórica” apresenta-se como um “método apropriado para desenvolver uma Ética e uma Política que, efetivamente, respondam às inquietações humanas numa perspectiva social”. Por ser uma racionalidade aberta, onde “os temas ético-políticos são organizados e que integra elementos passionais (emoções, paixões) e racionais num constructo filosófico”, servir-se desse tipo de racionalidade “significa procurar compreender o ‘mundo-da-vida’ em que nos encontramos e nele descobrir os lugares-comuns (ético-políticos), a fim de fundamentarmos a filosofia para e com os seres humanos” (RHODEN, 2010, p. 165-171).

Uma “racionalidade retórica” equivaleria à “razão provisória” (CUNHA, 2005, p. 9) e se propõe a ser “o que de mais provisório se apresenta à construção de pura racionalidade” pretendida pelo saber científico. Essa noção de “razão provisória” encontra-se amparado no seguinte argumento: “Se a razão é infalível e a investigação humana pode ser confiada às regras infalíveis em qualquer campo, não há lugar para a Retórica, que é a arte da persuasão. Mas, se, na esfera do saber humano, a parte do incerto, do provável, do aproximativo é mais ou menos ampla, a persuasão pode ter alguma função e a sua arte pode ser cultivada” (ABBAGNANO, 2007, p. 57, grifo nosso).

Logo, podemos entender que os sentidos da informação não passam de mera abstração por meio de conceitos e da linguagem. Conforme o entendimento dos estudiosos da Retórica, a língua é palco da oposição entre diferentes pontos de vista e do confronto das subjetividades (MOSCA, 2004, p.17). Sendo a retórica esse “palco de subjetividades”, indaga-se sobre que base a linguagem, a informação e o símbolo se articulam com a realidade em uma perspectiva hermenêutico-retórica.

Um dos apontamentos de Rhoden (2010, p. 171) é a possibilidade de um aprofundamento sobre o desenvolvimento de “incontáveis afinidades e distinções entre a racionalidade retórica e a filosofia hermenêutica contemporânea, basicamente a de orientação heideggeriana e gadameriana”.

E, seguindo a ausência de discussão e da clara influência desses dois filósofos alemães (Heideggger e Gadamer) nas perspectivas capurrianas de uma CI – enquanto uma Ciência Hermenêutica – vale destacar que o próprio Capurro afirmava que a


[...] hermenêutica oferece uma nova visão sobre a questão de como o conhecimento está sendo pragmaticamente construído e socialmente compartilhado por seres humanos, cujo ser é basicamente um ser-no-mundo-com-os-outros. O estudo empírico deste fenômeno é o cerne da ciência da informação. (CAPURRO, 1991, p. 7, tradução nossa).


Uma abordagem filosófica da linguagem pressupõe um olhar atento à história da filosofia. Desse modo, dos pré-socráticos a Wittgenstein, passando pela Idade Média e pelo Iluminismo, muitos filósofos pensaram a linguagem e, com isso, podemos entender que muitos filósofos estabeleceram a seu próprio modo uma Filosofia da Linguagem (SALDANHA; GRACIOSO, 2014, p. 3).

A filosofia da linguagem surge como possibilidade concreta de análise da informação e sua relação com os processos de aprendizagem, uma vez que “a linguagem também desempenha um papel fundamental na formulação de informações, realizando seu processamento, seu armazenamento, sua recuperação e sua organização” (LOGAN, 2014, p. 80), “a linguagem também é uma ferramenta para o desenvolvimento de novos conceitos e ideias” (VIGOTSKY, 2008).


[1] Embora a “racionalidade retórica” em Aristóteles seja muito específica, pois faltava a ele, segundo Rhoden (2010, p. 169) a dimensão social do homem. Problema que foi aprofundado por autores como Hegel, Marx, Scheler e, aqui no Brasil, por Lima Vaz.

Algumas fontes

ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

AUROUX, S. A Revolução Tecnológica da Gramatização. Campinas: Editora Unicamp, 2009.

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 2a ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

BELKIN, N. J. Information Concepts for information science. Journal of Documentation, London, 34, n.1, p. 55-85, 1978.

BROOKES, B. C. The foundation of Information Science. Part I: Philosophical aspects. Journal of Information Science, v. 2, p. 125-133, 1980.

BUCKLAND, M. K. Information as thing. Journal of the American Society for Information Science, New York, v.45, n.5, p. 351-360, 1991.

CAPURRO, R. Epistemology and information science. Lecture given at the Royal Institute of Technology Library Stockholm, Sweden. REPORT TRITA-LIB-6023. 1985. Hermeneutics and Information. Disponível em: <http://www.capurro.de/trita.htm#III>. Acesso em 12 Dez. 2014.

CAPURRO, R. Foundations of information science: review and perspectives. In: INTERNATIONAL CONFERENCE ON CONCEPTIONS OF LIBRARY AND INFORMATIONSCIENCE, Finland, 1991. Proceedings… Tampere: University of Tampere, 1991. Disponível em: <http://www.capurro.de/tampere91.htm>. Acesso em: 15 Fev. 2015.

CASSIRER, E. Ensaio sobre o Homem: Introdução a uma Filosofia da CulturaHumana.Tradução de Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Martins Fontes, 2012.

ILHARCO, F. Filosofia da Informação: uma introdução à informação como fundação da acção, da comunicação e da decisão. Lisboa: Universidade Católica, 2003.

LANGER, S. K. Filosofia em nova chave: Um estudo do simbolismo da razão, rito e arte. São Paulo: Editora Perspectiva,1971.

LOGAN, R. K. Que é informação?: A propagação da organização na biosfera, na simbolosfera, na tecnosfera e na econosfera. Rio de Janeiro: Contraponto: PUC-Rio,2012.

MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação: como extensões do homem. Editora Cultrix,1974.

ZEMAN, J. Significado filosófico da noção de informação. In: CUNHA, F.; FELIX, M. (dir.). O conceito de informação na Ciência contemporânea. Tradução de Maria Helena Kühner. v.2. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970. p. 154-179.

­­­

Posts Em Destaque
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square
Siga

© 2013 Ecce Liber: Filosofia, Linguagem e Organização dos Saberes. Desenvolvedor: Diogo Xavier da Mata.

Centro de Estudos Avançados em Ciência da Informação e Inovação (CENACIN - IBICT)

CAPES - CNPq - FAPERJ