ASCENÇÃO E QUEDA DAS EPISTEMOLOGIAS REGIONAIS: a autoridade científica em Pierre Bourdieu e os estud

Nascido em 1º de agosto de 1930 e falecido em 23 de janeiro de 2002, filósofo e sociólogo, Pierre Bourdieu contribuiu com a prática da sociologia cultural e da antropologia cultural, além de sua vasta obra ser relevante para o desenvolvimento de todas as ciências sociais (CHARTIER, 2002, p. 139). Faz parte da compreensão de Bourdieu sobre uma epistemologia dos estudos sociais a necessidade de manter a sociologia rigorosa, buscando ter autonomia intelectual. Neste sentido, o filósofo social “devotou suas energias a construir instituições de produção científica protegidas das dependências gêmeas do comando estatal e das regras do mercado” (WACQUANT, 2002, 99).

Bourdieu apresenta o conceito de “autoridade científica” no livro “O campo científico” em 1976 e o define como a soma da capacidade técnica com o poder social. Em sua visão o monopólio dessa autoridade no campo científico é o que está em jogo nas lutas e estratégias ocorridas dentro desse universo (1983, p. 122). Assim, para alcançar êxito no objetivo do campo, as atividades científicas possuem “todas as práticas orientadas para a aquisição de autoridade científica (prestígio, reconhecimento, celebridade, etc.)” (BOURDIEU, 1983, p. 124).

O monopólio adquirido pelo cientista, detentor de autoridade, permite definir critérios para dizer o que é ou não científico, legitimando as pesquisas conforme seu interesse. A legitimidade é “socialmente outorgada, geralmente, pelos pares concorrentes, a um agente ou grupo de agentes no interior do próprio campo” (GARCIA, 1996, p. 68). O “círculo de legitimidade” cumpre função essencial dentro do campo, “a circulação circular dos objetos, dos métodos e, sobretudo, do reconhecimento no interior de uma comunidade [...] um universo de crenças que encontram seu equivalente tanto no campo religioso quando no campo da literatura ou da alta costura. (BOURDIEU, 1983, p. 153).

Esse modelo de campo, ou metáfora de campo, para González de Gómez, é trabalhado na modernidade e está em transição para um novo modelo, o de redes. Contudo, dentro do modelo de campo, este adotado por Bourdieu para o desenvolvimento de sua pesquisa, “remete aos ‘regna’ do conhecimento, conjugando as ideias de território, de fronteira e de domínio” (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 2007). É comumente utilizada em diversas áreas e com propostas próprias para a definição de autoridade em seu meio. Assim, a aquisição de autoridade, para González de Gómez (2007), vai além do reconhecimento pelos pares. Ela resulta de e em transformações mais profundas, que alteram a produção de conhecimento.


“O modelo de campo refere-se, antes que as epistemologias regionais, a espaços sociais de saberes e práticas, onde os atores lutam pela definição da autoridade epistêmica do campo, posição central ou hegemônica onde serão definidos e legitimados os valores do campo, tais como os critérios de validade e de reconhecimento da produtividade científica, e de que a clara instituição depende, ao mesmo tempo, do vigor da lógica interna do campo e de sua autonomia.” (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 2007, grifo nosso).


Os conflitos epistemológicos são também políticos e torna-se difícil dissociar a ciência das práticas sociais. Em outras palavras, os interesses do pesquisador são baseados nos interesses dos outros, para que contribuições gerem lucros simbólicos. Esse lucro é “propriamente científico, isto é, a obtenção do reconhecimento dos pares-concorrentes” (BORDIEU, 1983, p. 126-127). A autoridade é uma “espécie particular de capital social” que pode se converter em outros tipos de capital e, em um campo que possua forte autonomia, o reconhecimento vem dos pares que são concorrentes e validam a produção de conhecimento (BOURDIEU, 1983, p. 127).

O acúmulo de capital científico que faz do cientista uma autoridade perante os pares não se inicia após a inserção no meio científico, dentro do campo de conhecimento aonde se estabelece. Tal acúmulo começa no período escolar desde a época do “high school [...]. Deve esforçar-se em obter as melhores notas para ser admitido no college e, mais tarde, no graduate school”, e de outras maneiras, como cargos administrativos de confiança. Contudo, Garcia (1996, p. 68) observa que Bourdieu “não reduz a autoridade cientifica a um conjunto de capacidades técnicas ou teóricas determinadas. Pelo contrário, enfatiza que é impossível dizer até onde vai, na ideia de autoridade ou de competência científica, a capacidade técnica e onde começa o poder simbólico. Ou seja, os títulos escolares, as distinções e os rituais de consagração científica que atravessam o mundo acadêmico e científico, “contaminam” a percepção da capacidade propriamente técnica dos pesquisadores.” (GARCIA, 1996, p. 68).

Assim, Bourdieu afirma que a legitimação pelos pares não se constitui de um olhar puramente técnico, mas, na verdade, trata-se de uma condicionante dada a partir de uma “razão social” que permeia os olhares dos colegas de campo. Essa dupla face da legitimidade, Garcia (1996, p. 68) chama de “tecnocracia” que, “propalando princípios e razões puramente técnicas, vem exercendo, nas sociedades modernas, formas de controle social e político as mais sofisticadas e funcionais para as classes que detêm o poder econômico e político”.

Algumas fontes:

BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.

BOURDIEU, Pierre. O campo científico. In: ORTIZ, Renato (Org.). Pierre Bordieu: sociologia. São Paulo: Ática, 1983. Cap. 4.

BOURDIEU, P. Homo academicus. Florianópolis: ed. da UFSC, 2013.

BOURDIEU, P. A Economia das trocas linguísticas: o que falar quer dizer. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2008.

GONZÁLEZ DE GÓMEZ, Maria Nélida. Novas configurações do conhecimento e da validade da informação. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 8, 2007, Salvador. Anais... Salvador: UFBA/PPGCI; Ancib, 2007. Disponível em: <http://www.enancib.ppgci.ufba.br/> Acesso em: 8 fev. 2010.

JAPIASSU, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 4. ed. atual. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.

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