LAS HUELLAS DUM ROSTO LATINO-AMERICANO: um livro abierto às excepcionales memórias hermanas

Em outubro de 1999, nascia, na Argentina, uma aliança entre oito instituições não-governamentais de direitos humanos (1) com o propósito de promover a memória sobre as violações da dignidade humana e as contracondutas de resistência e luta pela verdade e a justiça no estado de exceção argentino, ora autoproclamado, como no totalitarismo do estado civil-militar, ora dissimulado nas entranhas burocráticas da coisa pública, como no estado (pseudo)democrático de direito. Esta aliança, denominada Memoria abierta, visa agir criticamente sobre o presente para fortalecer uma democracia inscrita sob a égide da dignidade humana e seus direitos derivados, em especial, os direitos humanos. As oito instituições co-fundadoras foram criadas entre os anos de exceção, 1974 e 1979, com um único objetivo: “mantener vigente la historia de hechos trascendentales de la Historia Argentina.” (BARCALA DE MOYANO, 2003, p. 144) Atuaram de maneira independente até a celebração, em março de 2000, do “Convenio de Cooperación”. Desde então, reuniram suas atuações humanitárias em prol da poiésis do rosto hermano marcado pela vilania da exceção. O projeto Patrimonio Documental, coordenado pela aliança, teve por finalidade resgatar os rostos refugiados na abertura hospedeira das mais de 10 mil escrituras, para, a partir do realismo-fantástico da história latino-americana, narrar suas excepcionais memórias hermanas.

Tradicionalmente concebidas como um campo disciplinar de pouca inserção nos debates sócio-políticos e seus contextos históricos, a Biblioteconomia e Ciência da Informação sofrem uma ondulação em suas fronteiras ao se depararem com o umbral de uma realidade que mais parece fantasia. Longe da imaculada evidência e demasiadamente próxima da mácula testemunhal do humano, o campo científico choca-se com o campo da vida sitiada e suas representações. Com o intuito de selecionar, reunir e disponibilizar a documentação no catálogo coletivo Memoria abierta, o projeto Patrimonio Documental tem como mirada restituir, através da abertura escritural, o rosto humano daqueles que de modo fatídico estão ou estiveram de alguma maneira, direta ou indiretamente, submetidos à condição desumana (conditio inhumana) típica da estrutura jurídico-política do estado de exceção.

Carmen Aguiar de Lapacó é mãe de Alejandra Mónica Lapacó, detida e desaparecida em 16 de março de 1977. Ela é uma das Madres de la Plaza de Mayo - Línea Fundadora e integrante da Comissão Diretiva da Memoria abierta. Seu arquivo pessoal encontra-se disponibilizado no sítio <http://catalogo.memoriaabierta.org.ar/>.


Barcala de Moyano (2003) descreve o cenário, as decisões e os métodos de organização dos saberes para preservação e acesso às mais de 10 mil escrituras coligidas: testemunhos impressos e audiovisuais (vídeos, fotos), pancartas (contém fotos pessoais, poesias, resumos biográficos, dados dos lugares do desaparecimento ou sequestro (universidades, sindicatos, colégios) etc.), denúncias, material de difusão pública (folhetos, declarações, solicitações, adesões etc.), publicações periódicas (recortes de jornais), livros, objetos de recordação (correspondências, recordações de viagens), materiais institucionais (informes, boletins, revistas, livros), documentos jurídicos (causas judiciais). A experiência descrita é de grande valia prática, pois mostra como os artefatos bibliotecários e documentalistas vão sendo dispostos – política de seleção e desbaste, leitura indexadora, tesauro, política de digitalização e automação, modelagem da linguagem documentária, construção do catálogo coletivo etc. –, e como suas decisões assemelham-se aos traços que delineiam, no mosaico do rosto vilipendiado, as huellas dos riscos repressores. Esses traços podem ser vistos, por exemplo, ao adicionar o campo “nombre de personas” para inserir apelidos (alcunhas) dos desaparecidos, dos militares e dos juízes envolvidos, ou, ao incorporar no desenvolvimento do Tesauro de Derechos Humanos expressões idiomáticas e características culturais da história do país, não inscritas nos tesauros até então existentes.

Portanto, o projeto Patrimonio Documental descrito por Barcala de Moyano (2003) e concretizado no sítio Memoria abierta (http://www.memoriaabierta.org.ar/wp/) enceta na escritura de um livro aberto borgeano, hospitaleiro às memórias excepcionais da exceção e da excelência argentina, um caleidoscópico rosto cortazariano, que nos labirintos de suas huellas, escreve desenhando o real-fantástico de ser cronópio na América Latina.

BARCALA DE MOYANO, Graciela G. “Memoria abierta”: patrimonio documental de organismos de derechos humanos en la Argentina. Scire, v. 9, n. 1, p. 139-150, 2003.

(1) Em ordem alfabética, as oitos instituições que co-fundaram a aliança Memoria abierta: 1) Abuelas de Plaza de Mayo, 2) Asamblea Permanente por los Derechos Humanos, 3) Asociación Buena Memoria, 4) Centro de Estudios Legales y Sociales, 5) Familiares de Desaparecidos y Detenidos por Razones Políticas, 6) Fundación Memoria Histórica y Social Argentina, 7) Madres de la Plaza de Mayo Línea Fundadora e 8) Servicio Paz y Justicia.

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