O PROLETARIADO E A INFORMAÇÃO: a paisagem social sob o prisma roubakiniano

As teses de Roubakine foram consolidadas e sistematizadas na publicação, em dois volumes, da obra “Introduction à la psychologie bibliologique: théorie et pratique”, de 1922, incentivada por Paul Otlet e Adolphe Ferrière. Roubakine estudou psicologia e matemática na Universidade de São Petesburgo e concluiu seus estudos na segunda metade dos anos 1880. Acusado de divulgar textos revolucionários em 1886, o teórico russo foi proibido de ocupar cargos acadêmicos neste ano. Orientado diretamente ao estudo do povo, Roubakine lutou contra o analfabetismo das massas populares da Rússia. Nesta trajetória, o teórico atuou nas funções de bibliotecário, escrivão, editor, redator, tradutor, livreiro, propagandista além de outras atividades relativas ao mundo do livro. (SAMSOVA, 1998)


Aos 27 anos, sucedendo sua mãe no posto de bibliotecário, Roubakine inicia seu contato direto com a experiência individual da leitura, fato este marcante para toda a sistemática de seu pensamento. O teórico russo transforma a biblioteca em um centro de educação e cultura, como também um espaço de investigação científica para a leitura, um laboratório de estudos do leitor e de suas práticas. O foco social está imbricado com o horizonte científico: o ideal de alfabetizar e preparar as massas para os embates do conhecimento até ali presentes no império passa ser o objetivo roubakiniano. O horizonte principal da Bibliopsicologia, pois, está em se perguntar pelo homem por trás

do livro. (SAMSOVA, 1998).

Para Roubakine (1998a), a criação, a produção e o uso dos artefatos bibliográficos não podem ser encarados, à primeira vista, como fenômenos da natureza, sendo, pois, frutos de uma vida social e histórica. A grande pergunta-problema apresentada por Roubakine (1998a) é: podemos afirmar que todo livro possui um conteúdo que lhe é próprio, independentemente da personalidade do leitor, do processo de leitura, das condições do lugar de apropriação ou do momento onde o processo se efetua? A resposta à questão representa, na visão roubakiniana, o desenvolvimento de uma reforma indispensável para a compreensão dos modos de produção e de uso do livro.

A questão por trás de toda a argumentação de Roubakine (1998a,b) está em se interrogar a condição histórica das massas populares, das classes de trabalhadores, diante do potencial de transformação dos artefatos bibliográficos e os modos de instrução anterioremente postulados por uma elite intelectual. Uma nova vida social só poderá emergir quando da apropriação por parte desta classe dos conhecimentos produzidos pelo homem até ali não partilhados. O propósito roubakiniano é constituir um método integral de aquisição de conhecimento que pode conduzir mais rapidamente aos objetivos de tal partilha. A partilha não do conhecimento, mas da humanidade (dividida em nações, classes e profissões) representa uma absoluta contradição à possibilidade de integração do conhecimento e representa o obstáculo para a transformação social da vida. Neste sentido, a “biblio-psychologie est um des moyens d’humaniser l’humanité” (ROUBAKINE, 1998a, p. III).


Como descreve Otlet (1934), o projeto empírico da bibliopsicologia visava, para conhecer o homem por trás do livro, redigir livros de socialização da ciência, estudar os objetivos da educação e do autodidatismo, transformar as bibliotecas em laboratórios de pesquisa sobre a circulação de ideias, organizar as atividades de edição e distribuição dos livros e, o mais importante, construir a compreensão coletiva, por meio de tal ciência, que, sob o regime político corrente no início do século XX, a opressão social imperava, distanciando os trabalhadores da justiça e da verdade.

Neste sentido, a Bibliopsicologia “indique la voie qui conduit dans les profondeurs de l’âme humaine, profondeurs où se cachent la conscience morale, la vérité et, d’une façon générale, le príncipe même de la vie spirituelle” (ROUBAKINE, 1998a, p. IV). Constitui-se, desde o princípio, nesta proposta epistêmica, um jogo profícuo entre subjetividade e objetividade que, na visão roubakiniana, no entanto, não conduziria seu projeto a qualquer a-cientificidade da busca bibliopsicológica. Ao contrário, em sua visão, é possível constituir um ponto de vista objetivamente científico, como aquele das ciências naturais – em outros termos, mesmo não sendo inicialmente um modelo de ciências exatas, a Bibliopsicologia poderia chegar ao nível de rigor metodológico destas.


São as experiências determinadas e complexas do “ser psíquico” (termo adotado pelo teórico russo para evitar o uso metafísico e o uso teológico, respectivamente, das noções “alma” e “espírito”) com os artefatos bibliográficos que a Bibliopsicologia investiga, e não o artefato como unidade de análise. A partir desta perspectiva, a ciência descrita pelo teórico visa a uma relação de investigação que atinge não apenas uma só classe, mas também as classes desfocadas dos grandes métodos, chegando até as classes proletariadas e ao foco democrático propriamente dito. (ROUBAKINE, 1998a).

Um importante “desvio” conceitual é aqui estabelecido para os estudos da intencionalidade: Roubakine (1998a, p. 6) chama a atenção que o âmbito psicológico de sua “ciência bibliológica” (ou ciência do livro) não deve investir no conceito de “consciência” – em sua visão, o conceito não designa a totalidade dos fenômenos psíquicos, mas apenas uma categoria superior. Por isto, para Roubakine (1998a) a noção de “experiência” evoca o conjunto macro dos fenômenos psíquicos, seja uma representação, uma emoção, um desejo, contidos no domínio do consciente ou do subconsciente. Para tal, o teórico russo adota a noção de “experiência psíquica” para o grupo de fenômenos que vão além daqueles reconhecidos como emotivos, passando por todos da vida psíquica.


Em uma demarcação sintética, a “bibliopsicologia” procura conhecer os fenômenos psíquicos relativos aos estudos em geral do homem e contribuir para as ciências. Tal ciência aborda cientificamente os processos de leitura, observados analiticamente a partir de experiências, induções, hipóteses e deduções. Reencontramos, pois, neste âmbito, a relação fenomenológico-informacional vislumbrada em Budd(2005) como acima discutido. No entanto, o ponto de partida desta ciência, ou desta abordagem para os estudos da mente em seus processos de produção e de apropriação da informação, tem sua origem claramente distinta da construção do ponto de vista informacional, de fundo mecanicista e neoliberal, dos estudos cognitivos dos anos 1970.

O nascimento desta espécie de teoria do conhecimento tratada como Bibliopsicologia tem seu solo na experimentação da virada do século XIX para o XX, segundo Roubaknie (1998a), nas escolas, nas bibliotecas, nas salas de leitura, nos auditórios de cursos populares, nas redações de revistas, nas livrarias, em cada lieu de conspiration da propaganda revolucionária. Ela está historicamente vinculada, como ciência aplicada, às ações contrárias à opressão do regime absolutista russo, diante do sofrimento, das deportações, das execuções. Está aqui, neste sentido, a profunda significação moral e social da nova ciência. Compreender a intencionalidade é, pois, identificar os potenciais de transformação social – em um sentido epistêmico, de pano de fundo, a intencionalidade como objeto de uma Ciência da Informação estaria, hoje, com foco em um claro e demarcado plano político.


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