DA PARTILHA DO SENTIDO: organização do conhecimento e pragmática no território informacional

Dentro do mundo informacional – ou mundo dos saberes -, os estudos da organização do conhecimento partem, primeiramente, atrás do usuário sediado em uma cultura específica para desenvolver suas investigações. A epistemologia da pragmática tem na movimentação dos construtores do conhecimento, pesquisadores e comunidades discursivas, seu primeiro objeto de investigação. No mundo informacional é a informação pragmática – ou a informação observada por um ponto de vista pragmatista - que responde pela complexa agenda de necessidades e usos da informação que os usuários compartilham. (RENDÓN ROJAS, 1996).

Para Rendón Rojas (1996), o enfoque pragmático é um fundamento essencial para o estudo da informação, uma vez que reconhece a dialética do sujeito com o mundo que o cerca. González de Gómez (1996) partilha da mesma opinião. A pesquisadora observa que a pragmática apresenta elementos para superar os limites, as simplificações e exclusões das teorias sintática e semântica da informação. Segundo González de Gómez (1996), na década de 1980, diversos estudos da informação se concentraram no problema da relação significado-informação, mas a partir de diferentes objetivos. Dentre estes, dinamizar sistemas de recuperação da informação, aperfeiçoar os mecanismos de representação informacional e incorporar a diversidade cultural na programação de ações locais.

Para González de Gómez (1996) e Rendón Rojas (1996) ponto fundamental na filosofia pragmatista é a noção de regra. Esta noção nasce a partir da construção pragmática de Wittgenstein (1979). Através desta é constituída a estrutura que permite as diversas interpretações pelos usuários da informação. Aqui a noção de regra se contrapõe ao conceito de lei. As leis são regularidades que independem do contexto, da percepção dos indivíduos que dela fazem uso. Ao contrário, as regras são instrumentos ou símbolos não de representações mentais, mas práticas sociais. Os critérios que levam um indivíduo a seguir uma e não outra regra partem do caráter público de construção social do conhecimento. As regras organizam a experiência prático-discursiva, gerando “normalizações” que são constituídas sobre o contrato local dos participantes de uma relação intersubjetiva mediada por uma linguagem. Os jogos de linguagem são as maneiras plurais em que as práticas coletivas relacionam as palavras e as coisas, o novo e o velho, as experiências e as expectativas. Assim, os jogos de linguagem são matéria de estudo da CI. (GONZALÉZ DE GÓMEZ,1996).

A vivência coletiva da linguagem constituída é o fato que “estabiliza” a pluralidade sem o relativismo ad infinitum. A vivência cria a possibilidade de julgar, de significar. Um jogo de linguagem, de onde emergem os intercâmbios informacionais e a interpretações dos artefatos de memória, pode expressar muitas formas de vida, sem que uma forma de vida ou linguagem sintetize outras, sem que se estabeleçam como incomensuráveis. (GONZALÉZ DE GÓMEZ, 1996).

A organização do conhecimento segue, sob o olhar da tradição pragmática, o caminho da multiplicidade: os significados comuns não são o espelho do mundo, nem a reprodução de um espírito objetivo de essências culturais, nem o resultado de um a priori normativo. No pragmatismo palavras e conceitos participam do sentido, mantendo entre si relações complexas e nunca saturadas. Estas relações são as chamadas semelhanças de família.

Algumas fontes

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BLAIR, D.C. Information retrieval and the philosophy of language. The Computer Journal, 35, 3, 200-207, 1992.

GONZÁLEZ DE GÓMEZ, Maria Nélida. Comentários ao artigo “Hacia um nuevo pardigma em bibliotecologia”. Transinformação, Campinas, v. 8, n. 3, p. 44-56, set./dez. 1996a.

GONZÁLEZ DE GÓMEZ, Maria Nélida. Comentários ao artigo “Hacia um nuevo pardigma em bibliotecologia”. Transinformação, 8, 3, 44-56, 1996b.

GRACIOSO, Luciana de Souza. Filosofia da linguagem e Ciência da Informação: jogos de linguagem e ação comunicativa no contexto das ações de informação em tecnologias virtuais. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) - Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia; Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, 2008.

HABERMAS, J. Teoria de la accion comunicativa. Madrid: Taurus, 2003.

HABERMAS, J. Pensamento pós-metafísico: ensaios filosóficos. Coimbra: Almedina, 2004.

RENDÓN ROJAS, Miguel Ángel. Hacia um nuevo paradigma em bibliotecologia. Transinformação, Campinas, v. 8, n. 3, p. 17-31, set./dez. 1996.

SALDANHA, G. S.; GRACIOSO, L. S. Filosofia da linguagem e Ciência da Informação na América Latina: apontamentos sobre pragmática e linguagem ordinária. In: Miguel Ángel

Rendón Rojas. (Org.). El problema del lenguaje en la bibliotecología / ciencia de la información / documentación. Un acercamiento filosófico-teórico. 1ed.Cidade do México: UNAM, 2014. p. 1-32.

WITTGENSTEIN, Ludwig. Observações filosóficas. São Paulo: Loyola, 2005.

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