Movimentos micrologológicos: Suzanne Briet e o fabuloso antílope

Aproximemo-nos de Frohmann (2011) para avançar sobre as interpretações que o “neodocumentalismo” nos propõe. Não é a instituição que indexa isoladamente documentos produzindo novas informações, ela já é um outro “indexador simbólico do simbólico”.

Em primeiro lugar, nossa própria linguagem, rearticulada com cada “fronteira” de territórios institucionais, “reindexa” permanentemente – é por isso que uma “indexação” (a prática do catalogador de assuntos ou especialista de linguagens documentárias) sempre guardará diferenças se realizada sobre o mesmo documento em tempos diferentes. Não indexamos na instituição, mas na sua “fronteira provisória”: pois o caráter simbólico, a teia que nos cerca, nunca está contida em só espaço-tempo. Os jogos de linguagem se comunicam com os jogos, trocam semelhanças, redefinem gramáticas – não sou, ao indexar um livro na Library of Congress, um documentalista; sou também, naquele momento, por exemplo, filho de uma família protestante, que fez intercâmbio na Espanha, que sempre adorou a música francesa, que descobriu uma filosofia de vida na Índia.

A partir de Briet (1951) propomos três “movimentos”, que chamamos de “movimentos micrologológicos”, que levam até uma “microsimbólica arte da indexicalidade”:

a) A linguagem como terceira margem ou como a própria água: o Antílope como o próprio rio em seu curso acidental. Não estamos, ao realizar uma análise na Organização dos Saberes – uma análise documentária, ou biblioteconômica, ou informacional, de um recurso – tocando o objeto, nem suas aparências. Não estamos nem entre as margens, nem no rio: somos o próprio curso se recriando na dinâmica acidental do leito do tempo;

b) Briet, aquela que nunca viu um Antílope: pensemos que uma mulher, a qual tratamos pelo nome Suzanne Briet, nunca viu um antílope em vida. Digamos que esta mulher teve contatos na infância com livros de ilustração ou enciclopédias que mencionaram uma “mancha”, um “traço” do possível significado de antílope (um traço verbal ou averbal, como uma ilustração). Iniciamos aqui um processo intersubjetivo de análise micrologológica: uma camada de discursos se soma a outra camada. O documento, aqui, não é nem o animal em seu habitat – o que dizia a Briet documentalista – nem ele no zoológico – o que, por sua vez, afirmava a Briet documentalista (no zoológico, antílope perde seu caráter “natural” e ganha caráter de “ser documentado”), mas o discurso que elabora a noção de antílope.

c) Antílope, o fabuloso: chegamos ao simbólico. A natureza do “antílope” não é estar no seu “habitat natural”, nem na instituição (interpretação frohmanninana) que o acolhe, mas, primeiramente, o fato de “ser”, enquanto “antílope”, uma criação discursiva do homem. Os antílopes em sua coletividade nunca se trataram como antílopes, nem se perguntaram por suas caraterísticas orgânicas, nem se classificaram na cadeia alimentar, nem discutiram socialmente os problemas causados por sua condição uma vez confinados em zoológicos, nem refletiram sobre a ética do uso de sua imagem em gabinetes de curiosidade. “Antílope” é, pois, uma elaboração discursiva que coloca a aproximação do significante, do significado e da “coisa” “antílope” no domínio do “pré-documentado”.

Algumas fontes

BRIET, S. Qu'est-ce que la documentation? Paris: Éditions Documentaires Industrielles et Técnicas, 1951. BUCKLAND, M. Information as thing. Journal of the American Society of Information Science, v. 42, n. 5, p. 351-360, jun. 1991. CAPURRO, R.; HJORLAND, B. The concept of information. Annual Review of Information Science and Technology, v. 37, p. 343-411, 2003. ESTIVALS, R. A dialética contraditória e complementar do escrito e do documento. R. Esc. Bibliotecon. UFMG, Belo Horizonte, v. 10, n. 2, p. 121-152, set. 1981. FOUCAULT, M. et. al. Estruturalismo e teoria da linguagem. Petrópolis: Vozes, 1971. FROHMANN, B. Documentation redux: prolegomenon to (another) philosophy of information. Library Trends, v. 52, n. 3, p. 387-407, win. 2004. FROHMANN, B. Revisiting “what is a document?” Journal of documentation, v. 65, n. 2, p. 291-303, 2009. FROHMANN, B. Reference, representation, and the materiality of documents. In: Colóquio científico internacional da Rede MUSSI Mediações e hibridações: construção social dos saberes e da informação. Anais... 2011. Toulouse: Université de Toulouse 3, 2011. JACOB, C. Prefácio. In: BARATIN, M.; JACOB, C. O poder das bibliotecas: a memória dos livros no Ocidente. Rio de Janeiro: ed. UFRJ, 2008. p. 9-17. LUND, N.W. Document Theory. ARIST, v. 43, n.1, p. 1-55, 2009. LUND, N.W. Document, text and medium: concepts, theories and disciplines. Journal of Documentation, v. 66, n. 5, p. 734-749, 2010. OTLET, P. Traité de documenatation: le livre sur le livre: théorie et pratique. Bruxelas: Editiones Mundaneum, 1934. RANGANATHAN, S.R. As cinco leis da Biblioteconomia. Brasília: Briquet de Lemos, 2009.

SALDANHA, G. O fabuloso antílope de Suzanne Briet: a análise e a crítica da análise neodocumentalista. In: XIII ENANCIB - Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação, 2012, Rio de Janeiro. Anais do XIII ENANCIB - Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2012. v. 1. WITTGENSTEIN, L. O livro azul. Lisboa: Ed.70, 1992. WITTGENSTEIN, L. Investigações Filosóficas. 2o ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

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