Briet e o antílope, o fabuloso neodocumento

Na etimologia, antílope responde pelo grego anthólops, que significa um animal fabuloso, das margens do Eufrates, muito selvagem, difícil de apanhar, com chifres capazes de cortar árvores. Anthos quer dizer em grego “flor” e ops quer dizer “olhos”. Percebamos: a etimologia, domínio estritamente lingüístico, participa ativamente da construção de uma “cientificidade” bibliológica no século XIX. Poderíamos tratar aqui de uma “primeira indexicalidade (impura)”.

A etimologia não nos conta a verdade – a essência, a quidade – de um ente, mas as possibilidades de apropriação dele, pela linguagem, ao longo do tempo. Chegaremos à seguinte construção: para o caso analisado, dois “antílopes” se destacam: Antílope: “um” animal fabuloso na mitologia grega; Antílope: “uma” fabulosa metáfora de Briet.

O antílope é fabuloso não apenas por ser uma construção da linguagem da mitologia, mas também das ciências naturais, mas também da Documentação. Percebamos como o conceito de antílope como documento produzido por Briet multiplica-se em comentários, exegese, discursos, como em Buckland (1991), Frohmann (2004, 2009), Day (2001), Lund (2009). Pois bem, não é a ancestralidade mitológica que faz do “antílope” (coisa, nome, significado) um rastro de linguagem – uma manifestação simbólica – nem é o uso da representação pelas ciências descritivas fundadas no representacionismo dos séculos XVII e XVIII que nos permitiria afastar coisa e palavra. Também o exemplo de Briet (1951) a partir da metáfora do antílope não o é simbólico “puro”.

O que temos é que, cada qual a seu modo, cada uso aplicado à palavra “antílope” – somado ao complexo de camadas de interpretações sobre este significante – dá ao termo uma complexa teia de significados que simultaneamente nos “afasta” da “coisa” – o pretenso “ser vivo” “antílope” – e nos coloca diante dela, a sua semelhança pragmática no contexto dado, “verdadeira” “materialidade” que nos interessa – nossa imaginação imediatamente indexa a quase-coisa dentro de nossa memória. Insistimos em Wittgenstein (1979): algo estava preparado (intersubjetivamente) em nossa linguagem, senão não poderíamos classificar.

Finda-se aqui, a relação mais estrutural da noção de “documento” brietiana: o documento como status de evidência, prova. Não é o documento uma prova, mas a prova é um “documentado”. Pensemos: se “antílope” é, antes de um “ser vivo”, um termo simbolicamente compartilhado por imaginários, antes de afirmamos que o “ser vivo” para o qual apontamos agora com o dedo é um “antílope”,que prova a “existência” do mesmo ou dá subsídios para o estudo disto ou daquilo, a própria “prova” é um processo discursivamente elaborado por uma comunidade, ou uma sociedade, documentada no imaginário, e, depois, aplicada a outros discursos, como o discurso sobre as coisas, do “desdobramento” documental que é, no fundo, uma mimese do simbólico, antes de uma mimese material.

Algumas fontes

BRIET, S. Qu'est-ce que la documentation? Paris: Éditions Documentaires Industrielles et Técnicas, 1951. BUCKLAND, M. Information as thing. Journal of the American Society of Information Science, v. 42, n. 5, p. 351-360, jun. 1991. CAPURRO, R.; HJORLAND, B. The concept of information. Annual Review of Information Science and Technology, v. 37, p. 343-411, 2003. ESTIVALS, R. A dialética contraditória e complementar do escrito e do documento. R. Esc. Bibliotecon. UFMG, Belo Horizonte, v. 10, n. 2, p. 121-152, set. 1981. FOUCAULT, M. et. al. Estruturalismo e teoria da linguagem. Petrópolis: Vozes, 1971. FROHMANN, B. Documentation redux: prolegomenon to (another) philosophy of information. Library Trends, v. 52, n. 3, p. 387-407, win. 2004. FROHMANN, B. Revisiting “what is a document?” Journal of documentation, v. 65, n. 2, p. 291-303, 2009. FROHMANN, B. Reference, representation, and the materiality of documents. In: Colóquio científico internacional da Rede MUSSI Mediações e hibridações: construção social dos saberes e da informação. Anais... 2011. Toulouse: Université de Toulouse 3, 2011. JACOB, C. Prefácio. In: BARATIN, M.; JACOB, C. O poder das bibliotecas: a memória dos livros no Ocidente. Rio de Janeiro: ed. UFRJ, 2008. p. 9-17. LUND, N.W. Document Theory. ARIST, v. 43, n.1, p. 1-55, 2009. LUND, N.W. Document, text and medium: concepts, theories and disciplines. Journal of Documentation, v. 66, n. 5, p. 734-749, 2010. OTLET, P. Traité de documenatation: le livre sur le livre: théorie et pratique. Bruxelas: Editiones Mundaneum, 1934. RANGANATHAN, S.R. As cinco leis da Biblioteconomia. Brasília: Briquet de Lemos, 2009.

SALDANHA, G. O fabuloso antílope de Suzanne Briet: a análise e a crítica da análise neodocumentalista. In: XIII ENANCIB - Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação, 2012, Rio de Janeiro. Anais do XIII ENANCIB - Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2012. v. 1. WITTGENSTEIN, L. O livro azul. Lisboa: Ed.70, 1992. WITTGENSTEIN, L. Investigações Filosóficas. 2o ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

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