"Geoconceitualidade": um método metalinguístico para os estudos informacionais?

Como investigar um domínio da linguagem, como os estudos informacionais, na e para a linguagem? Diferentes métodos, como a bibliometria e a bibliografia textual, lançaram questões sobre o olhar das práticas com registros documentais e suas inúmeras configurações metalinguísticas abertas.

Pensamos em duas direções complementares dos projetos correntes:

a) uma abordagem da-para linguagem como pressuposto para a reflexão filosófica dos estudos informacionais;

b) uma espécie daquilo que estamos tratando por “geografia conceitual”, ou seja, estudo das relações entre os intersujeitos e a fisicalidade de continentes e conteúdos documentais, bem como a dinâmica interna-externa de formações e movimentações de conceitos nos “solos” da produção do conhecimento de cada “comunidade intercognoscente” – em nosso caso, a epistemologia da Ciência da Informação e sua comunidade.

Um eixo central coexiste entre estas duas direções: uma “epistemologia histórica” confere à abordagem da linguagem e à “geoconceitualidade” sua condição sociocultural aberta.

O método é resultado dos processos de apropriação da metodologia filosófica do pensamento wittgensteiniano. Em outras palavras, trata-se de pensar a construção das “linguagens primitivas” dos domínios científicos ou apenas das comunidades de saberes e suas línguas de especialidade. Em um primeiro momento, a linguagem é tomada como modo de produção e expressão das “familiaridades” de cada grupo de indivíduos intercognoscentes, seja este grupo acadêmico ou não.

Em um segundo momento, trata-se de daquilo que procuraremos determinar como uma espécie “geografia conceitual”: arte bibliográfica de compreender as movimentações conceituais de um domínio epistemológico, suas “esferas” (posições hierárquicas no tempo e no espaço), suas “dinâmicas” (deslocamentos e estagnações) e seus “sismos” (propagações desde seu hipocentro até seus epicentros). As “esferas” são as “zonas” onde se avolumam e de onde se dispersam os fragmentos conceituais, aqui ou ali apropriados e elaborados como conceitos. Podem ser interpretadas a partir da posição de conceitos em livros, periódicos científicos, cartas e demais “registros” dos saberes de cada comunidade.

Os “sismos” respondem pelas “vibrações bruscas e passageiras” que demandam a análise dos hipo e epicentros. Os hipocentros, ou foco sísmico, ou regiões abissais interiores de onde se iniciam as rupturas de liberação de “energia”, representam os registros e-ou conceitos que inauguram o princípio de mutações epistêmicas no campo. Por sua vez, os epicentros, ou pontos na superfície terrestre que receberam e “dispensaram” as energias, representam os locus de dissipação e reprodução das elaborações conceituais tecidas internamente.

O domínio, pois, do que tratamos por “epistemologia histórica” (que reúne a reflexão epistemológica a partir e sobre a linguagem e o estudo da “geografia conceitual”), responde, também, por um “garimpo” de métodos e abordagens na própria epistemologia do campo informacional. No presente caso, trata-se de identificar na Bibliografia e em seu “papel socioepistêmico”, elementos metodológicos de compreensão da realidade social. O conceito de “esquema” e seus fragmentos são o nosso foco aqui. Interessa-nos centralmente demarcar os hipocentros deste conceito, para compreender seu desdobramento futuro na construção da “terceira via bibliológica” na geração de Robert Estivals, na França de meados do século passado.

Algumas fontes

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