A luta neoliberal pela "invenção" da Ciência da Informação a qualquer preço: linguagem, ma

No início dos anos 1990, no contexto de seu “campo científico”, Lancaster, então já renomado, percebe uma “invasão” terminológica em "sua episteme", fruto (direto) da mutação tecnológica e fonte (objetiva) das reconfigurações do papel social destas personagens.

Para a “irritação” de Lancaster (2004), os conceitos ou novos nomes respondiam por práticas já dadas – “Quando fiz o curso de biblioteconomia, zilhões de anos atrás, essas definições teriam sido definições exatas”. Segundo o autor, “pessoas do nosso próprio campo, que certamente deveriam saber mais (e ser mais responsáveis), colaboram com essa situação [da imprecisão terminológica]” (LANCASTER, 2004, p. vii). Vê-se o desespero de Lancaster (2004) com um certo “campo do conhecimento” (e, logo, sua possível “epistemologia casta”) ao qual pertence e nele produz e se reconhece, uma vez que reconhecido (prestigiado) ali é.

Nos Estados Unidos, mais especificamente, em um contexto de regime capitalista, o conhecimento se apresenta como algo essência e eticamente particular, privado. Como chama a atenção Brodman (1979), provavelmente a visão lancasteriana se faria verdade: na produção científica em breve observaríamos a mutação do uso da idade vegetal dos suportes para a idade eletrônica. Isto, no entanto, aponta a pesquisadora, já se relacionava com uma demanda, mesmo contexto estadunidense, da impossibilidade do acesso ao conhecimento. A ideia de uma “ciência aberta e livre” emerge como processo de tentativa de “deselitização” do conhecimento nos Estados Unidos.

"The need for a substitute for paper in this field is easy to understand. Such labor-intensive institutions as publishing houses and libraries have begun to be too costly for society to continue to underwrite. As Lancaster points out (p. 94), the production of new titles and new editions in science and technology was 20% greater in 1972 than in 1968; but the fifty-eight largest ARL libraries only added 1.5% more items to their collections in 1972 than they did in 1968. Journals-particularly indexing journals such as Chemical Abstracts, Biological Abstracts, or Excerpta Medica first grew too expensive for individuals to subscribe to; then too expensive for small libraries to purchase; so that now only the largest institutions can afford to buy the paper copies of these titles. Thus, society has created an elite of those people who work in institutions rich enough to provide them with power via information." (BRODMAN, 1979, p. 438, grifo nosso)

As pequenas bibliotecas públicas, responsáveis pela mediação do conhecimento científico e de sua memória (este de impossível acesso, por razões econômicas), já não possuíam condições de adquirir os periódicos científicos. O resultado era uma separação entre elite rica, “com” (acesso ao) conhecimento científico; e comunidades pobres, “sem” (acesso ao) conhecimento científico nos Estados Unidos. Eis então a visão lancasteriana: a “wave of future” seria a possibilidade de, através do computador, os problemas econômicos de acesso ao conhecimento científico serem resolvidos, ainda, que, como alertava Brodman (1979, p. 438), “serious technical, intellectual, social, and psychological problems which must still be solved before the new system can be fully operational.”

Wilf talvez não imaginasse que a “pressão” tecnológica interviria não apenas nos níveis sociais, mas também no domínio metaepistêmico de seu campo: o pensamento dito biblioteconômico e seus conceitos também seriam transformados, com ou sem necessidade, se vislumbrado o ponto de vista lancasteriano.

Primeiramente, o que merece atenção para nosso debate nas seções seguintes é que a visão brodmaniana está atenta aos Estados Unidos, um território com consideráveis diferenças no âmbito da distribuição econômica quando comparado ao Brasil. Por trás do debate, encontramos, ainda, a questão central: e o cientista-profissional da informação, que fará?

Como lembra Bourdieu (2004a, p. 35), os campos são lugares de vivência de “formas de poder” referentes a duas espécies de capital científico: a) o poder temporal ou político, ou ainda, poder institucional e institucionalizado (ligado a ocupação de postos importantes nos laboratórios e instituições científicas), complementado pelo poder sobre os meios de produção (como contratos) e reprodução (como poder de nomear) que ele assegura; b) o poder de ordem mais “pessoal”, vinculado ao prestígio, ora mais ora menos independente do precedente, que repousa exclusivamente sobre o reconhecimento, seja objetivado, seja institucionalizado.

Os processos de enredamento do “capital científico” segundo o pensamento bourdieusiano, dependem de “corpos” e de “edifícios”, que, por sua vez, respondem por “nomes próprios” e por “nomes institucionais”. O conceito de information já era utilizado na comunidade de pesquisadores dedicados à organização, preservação, acesso, uso e apropriação do conhecimento em instituições oitocentistas estadunidenses, como é o caso das publicações da ALA, nascida em 1876, e responsável, até hoje, pelo credenciamento e avaliação das instituições de CI no território norte-americano. Mas agora, cem anos depois, no mesmo território, sob nova “batalha epistêmica”, a presença do conceito agora responde por uma relação direta com o desenvolvimento das tecnologias novecentistas da linguagem: teoria matemática da comunicação e cibernética, por exemplo, são as “ferramentas distintivas” para isolar a construção histórico-hermenêutica da ideia de information nas escolas que dedicavam-se à organização do conhecimento. Estas teorias permitem retirar o termo da sua vida no seio das Humanidades, onde não possuía, nem de longe, um “prestígio distinto e distintivo”, perto de noções como “cultura”, “livro”, “patrimônio bibliográfico”, “leitura” e, mesmo, “conhecimento”.

"Information" agora quer dizer, e precisa dizer, nova marcha, novo modus operandi, novos (e diferentes) profissionais e cientistas. A década de 1960 se torna o “tempo” e os Estados Unidos o “espaço” da consolidação da “distinção sócio-epistêmica”, já iniciada entre os próprios bibliotecários estadunidenses na primeira década do 1900, quando aparecem as corporações dedicadas aos domínios especializados e às línguas científicas – mesmo os franceses, antes da Segunda Guerra Mundial, em razão de outras “aparições” tecnológicas, como o caso do microfilme e da edificação da trindade conceitual documento-documentação-documentalista no mundo francófono, já se iniciavam na mesma “luta simbólica”. Esta questão, aqui não explorada apenas por uma questão de foco entre Estados Unidos e Brasil, traz, na verdade, um elemento clarificador da “distinção”.

A partir dos anos 1990, com Michael Buckland (1992) e companhia, inicia-se uma crítica contumaz dos processos de “desmaterialização” da noção de information, ativada a partir da apropriação sessentista do termo em língua inglesa. Quando Bernd Frohmann (2004, 2009, 2011) chama a atenção para uso “metafísico” do termo, junto de outras críticas, encontramos a “neodocumentação”, que restitui a “matéria” aos estudos informacionais (que significa não apenas o “documento”, como a primeira leitura do neodocumentalismo pode demonstrar, mas também “corpos” e “instituições”). Não que ela – a matéria - tenha “andado desaparecida” do cenário epistemológico. Mas certamente foi “minorizada”, foi tratada como “coisa menor”, diante do “prestígio”, principalmente, das possibilidades incalculáveis de “distinção sócio-epistêmica” que o termo information trazia. As mudanças de nomenclatura do ano de 1968 demarcam a “distinção nuclear”: quando se anuncia que a relação da expressão “ciência da informação” com as noções de interdisciplinaridade, tecnologia e sociedade da informação, evoca-se a “separação dos pretensos núcleos” para se inventar a “reunião de tudo”.

E aqui as queixas “tradicionais” de Lancaster (2004) se chocam com as visões “futuristas” de Lancaster (1978): entre uma “epistemologia casta” o pesquisador se encontra encurralado pelas transposições sócio epistêmicas.

Algumas fontes

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BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.

BOURDIEU, P. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2011.

BOURDIEU, Pierre. A distinção: critica social do julgamento. 2. ed. rev. Porto Alegre: Zouk; São Paulo: EDUSP, 2011.

BOURDIEU, P. Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo: Editora Unesp, 2004a.

BOURDIEU, P. Para uma sociologia da ciência. Lisboa: Edições 70, 2004b.

BOURDIEU, P. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

BOURDIEU, P. Lições da aula: aula inaugural proferida no Collège de France em 23 de abril de 1982. São Paulo: Ática, 2001a.

BOURDIEU, P. Meditações pascalianas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001b.

BOURDIEU, P. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas, SP: Papirus, 1996.

FROHMANN, B. Documentation redux: prolegomenon to (another) philosophy of information. Library Trends, v. 52, n. 3, p. 387-407, win. 2004.

FROHMANN, B. Reference, representation, and the materiality of documents. In: COLÓQUIO CIENTÍFICO INTERNACIONAL DA REDE MUSSI. 2011. Anais... Toulouse: Université de Toulouse 3, 2011.

LANCASTER, F. W. Indexação e resumos: teoria e prática. Brasília: Briquet de Lemos, 2004.

LANCASTER, F. W. Toward Paperless Information Systems. New York: Academic Press, 1978.

MEDEIROS, M. Recensão. Indexação e resumos: teoria e prática. Ci. Inf., Ci. Inf., Brasília, 22(2): 181-185, maio/ago. 1993

SALDANHA, G. S. O que é Ciência da Informação? Desafios imediatos e impactos hipotéticos da ?distinção? bourdieusiana na socioepistemologia dos estudos informacionais. In: Regina Maria Marteleto; Ricardo Medeiros Pimenta. (Org.). Pierre Bourdieu e a produção social da cultura, do conhecimento e da informação. 1ed.Rio de Janeiro: Garamond, 2017, v. 1, p. 72-101.

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