“É maravilhoso... brincar de ver”: história comparada e perspectivismo disciplinar

Nascida do anseio de comparar nações ou civilizações, com vistas a ultrapassar os limites estreitos da antiga história política ancorada nos nacionalismos que haviam conduzido a humanidade aos conflitos mundiais, a história comparada parece ter conquistado no decorrer de seu desenvolvimento uma gama bem maior de âmbitos passíveis de comparação: a região, os ambientes sociais, os processos econômicos ou políticos, as instituições, os repertórios do imaginário, ou mesmo, retomando um antigo gênero criado na antiguidade por Plutarco, as vidas comparadas.

José D’Assunção (2007, p. 310)

No “multiquadro” contemporâneo, a história comparada representa um dos mais frutíferos movimentos da teoria da história, a ponto de pleitear para si uma rubrica própria num campo historiográfico específico, atento às semelhanças e às diferenças das fabricações históricas. Dentre tantos deslocamentos epistêmicos provocados nas relações interdisciplinares e intradisciplinares, o perspectivismo da história comparada instaurado por entre os eixos sincrônicos e diacrônicos da teoria da história, estremece as coordenadas da tradição do fazer historiográfico, suscitando questões como “o que observar?” – recorte epistêmico – e “como observar?” – modo de tratamento sistematizado das fontes. José D’Assunção Barros (2007) apresenta-nos estas e outras nuances provocadas pelo ato de “comparar” em seu texto “História comparada: atualidade e origens de um campo disciplinar”.

Barros na escrita do estado da arte da história comparada levanta alguns traços – “origens, natureza epistemológica, aportes conceituais possíveis, metodologias disponíveis” – e algumas indagações – “o que é comparar? Por que se compara? O que se espera com a comparação? O que se pode comparar?” – com o propósito de apresentar o gesto metodológico e conceitual que “funda” a história comparada em um sem fundo de perspectivas – a) história demográfica, b) história econômica, c) história social (estudos de grupos sociais específicos), d) história urbana, e) história das relações internacionais, f) história cultural, g) história das revoluções, h) história do imaginário (universos fictícios comparados historiograficamente), i) história de vidas paralelas (biografias individuais ou coletivas), dentre outros usos. No panorama proposto por Barros ficam nítidos dois níveis demarcatórios empregados pelo autor para a significação do ato de comparar: 1) o sentido ordinário, cotidiano, através do qual nos servimos da comparação para o exercício intercompreensivo da comunicação, nas palavras do autor, “um nível instintivo” e 2) o sentido técnico-científico do ato de comparar, nas palavras de Barros, “um nível metodológico de abordagem”. Barros visa colocar em evidência o nível metodológico-conceitual do ato de comparar, afinal a escrita da história comparada se desdobra num campo científico-disciplinar cuja apresentação, ainda que leve em consideração as demandas historiográficas da vida cotidiana, tem como nicho a moldura da prática científica e suas lutas epistêmicas pela a autoridade e a validade dos seus enunciados.

A história comparada brota no contexto da crise humanitária vivida no período dos acontecimentos que antecedem e sucedem os conflitos das grandes guerras mundiais, em particular, a partir da exacerbação dos discursos historiográficos de cunho político-nacionalistas, por ora enviesados na conclamação de guerras. Diante de tal cenário, Barros (2007, p. 280) aponta que “comparar era de algum modo abrir-se para o diálogo, romper o isolamento, contrapor ao mero orgulho nacional um elemento de humanidade” e a história comparada foi, inicialmente através da antropologia e da linguística comparada, nomeada inúmeras vezes como “estudos da diferença” (BARROS, 2007, p. 311). No início do século 20, ao menos três abordagens da história comparada se apresentaram: 1) a amparada pela ideia de uma história total (da Europa e, talvez, do mundo), 2) a história das civilizações e 3) a história comparada proposta por Marc Bloch, atravessada por uma problematização definida e um método sistematizado. Desta polifonia podem ser identificadas ao menos cinco linhas historiográficas: i) a história comparada de bases sociológicas ou ambições generalizantes, ii) a história comparada dos modos de produção, iii) a história comparada das civilizações, iv) a história total comparada e v) a “história comparada problema” (BARROS, 2007, p. 281). Do cruzamento das abordagens com as linhas surge um “multiquadro”, ou, um “múltiplo campo de observação” baseado na complexidade significativa de realidades histórico-sociais distintas, simultaneamente semelhantes e diferentes, coletivos livres das amarras do logocentrismo das abordagens monocentradas na moldura político-estatal e em seus homens celebres (estadistas).

Por fim, o texto de Barros (2007) apresenta inúmeros exemplos históricos de utilização e desenvolvimento da história comparada, antes mesmo de assim ser nomeada, bem como, os desdobramentos contemporâneos “não previstos” pelo movimento em seu nascedouro discursivo. O texto aborda também os riscos e problemas encontrados na utilização da perspectiva historiográfica comparada, assinalando para os pontos positivos e negativos desta abordagem. Contudo, a escolha demarcatória de separar o ato de comparar enquanto “um mero gesto intuitivo” cotidiano (2007, p. 286), de um lado, e, por outro lado, enquanto um método histórico “propriamente dito” (2007, p. 298) limitou, talvez, a grande abertura de perspectivação do método, o pressuposto “estórico” dos usos ordinários que constroem e configuram a história. O próprio Barros (2007, p. 298) assinala um “pressuposto” de Giambatista Vico utilizado por Paul Veyne: “toda história é história comparada”, ou, mesmo quando em passagem inspirada pelo pensamento de Marc Bloch, Barros (2007, p. 299) afirma: “comparar trazia uma verdadeira esperança de comunicação entre os povos.” Enfim, o método, para se constituir enquanto tal, não precisa se descolar do cotidiano em sua observação. É plenamente possível o método partilhar do cotidiano enquanto um participante dessa construção social – a “gramática das civilizações”. E é justamente pela via da história comparada, em específico, pela linha da história das civilizações, em particular, pela influência da abordagem de Spengler, que Ludwig Wittgenstein propõe o seu método de abordagem – a apresentação panorâmica – fundado nos usos da linguagem cotidiana. Nos cadernos do fim dos anos 1930, Wittgenstein (2007, p. 200-201) escreve a seguinte observação: “o conceito de apresentação panorâmica tem para nós a mais fundamental importância. Ele marca a nossa forma de apresentação, a maneira como nós vemos as coisas. (Uma espécie de ‘visão de mundo’ tal como é aparentemente típica do nosso tempo. Spengler)” e continua, “esta apresentação panorâmica proporciona o compreender // a compreensão //, que consiste precisamente em ‘ver as concatenações’. Daí a importância do encontrar os elos intermediários.” A maravilha dos “estudos da diferença” está, para o perspectivismo wittgensteiniano, no “maravilhoso cotidiano”, encontrá-la nos laços da rede da linguagem faz parte da brincadeira dos seus jogos (de linguagem). A história comparada e o perspectivismo não são mais do que dois instrumentos que nos ensinam como “é maravilhoso... brincar de ver”!

REFERÊNCIAS

BARROS, José D’Assunção. História comparada: atualidade e origens de um campo disciplinar. História Revista, Goiânia, v. 12, n. 2, p. 279-315, jul./dez. 2007.

JODOROWSKY, Alejandro; MOEBIUS. Os olhos do gato. São Paulo: Nemo HQ, 2015.

WITTGENSTEIN, Ludwig. Observações sobre “O ramo de ouro” de Frazer. Revista Digital AdVerbum, v. 2, n. 2, p. 186-231, 2007.

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