Linguagem, Organização do Conhecimento e Luta Social: um glossário na trincheira da Iugoslávia

A luta pela sobrevivência em uma ou em cem palavras... Como podemos resistir a um mundo onde a opressão e os massacres ainda se acumulam, no espelho sórdido da invenção civilizatória? Como linguagem e organização do conhecimento se colocam como armas nessa guerra dentro de tantas outras guerras? O que fazer no dorso podre da miséria humana além de acordar vivo?

Alice Krieg-Planque (2012) demonstra um ethos provável para essas indagações: um dicionário atua (não sozinho, claro) para a luta social, para a sobrevivência de povos, de tradições, de razões históricas. A partir do “discurso de panfletos”, o gênero discursivo de luta social, a autora identifica no desenvolvimento de um glossário um horizonte da resistência e de justiça social.

O estudo de Krieg-Planque (2012) parte de uma pequena brochura de 1994, desenvolvida pelo Instituto Sérvio, chamado “Pequeno glossário da guerra civil iugoslava”, de Dennis Stoyanne. Aprofundando as relações os gêneros do discurso panfletário e do discurso polêmico, bem como as teorias da metalinguagem e outras teorias linguísticas, a autora demonstra o potencial desse meio discursivo de publicizar sua visão de mundo (e do seu povo) diante da guerra.

Estabelece-se, pois, a compreensão de uma retórica de combate, onde forma e conteúdo se complementam na concepção da resistência e da denúncia. A encenação da conflitualidade, da caracterização do front, é colocada, sob o tom da exposição do léxico enganador e a busca por atos de fala que procuram descortinar a barbárie dos discursos de verdade e de justiça adulterados.

O glossário atua, pois, como ferramenta do gênero panfletário focado na crítica da linguagem política. Assim, o pequeno glossário da guerra civil da Iugoslávia consegue atingir o seu objetivo, segundo a pesquisadora, de restauração da verdade, colocando na cena pública as contradições discursivas do Estado e o uso violado (e violento) da informação, a construção pós-verdades e a inversão de fatos, bem como a edificação lenta e duradoura de profundos e gélidos silêncios sobre acontecimentos bárbaros.

Desta maneira, como armas de guerra, para Krieg-Planque (2012), “dicionários, os glossários e os léxicos permitem responder a esse desequilíbrio do discurso que lhes confere uma aparência tão grotesca: os recursos do formato do dicionário organizam um dispositivo capaz de restaurar o equilíbrio - o que também é para o arquiteto uma maneira de fazer justiça”.

Referência

KRIEG-PLANQUE, Alice. Un dictionnaire de combat : le "petit glossaire de la guerre civile yougoslave" comme mode d'intervention dans un espace public en crise. Semen: Revue de sémio-linguistique des textes et discurs, v. 34, 2012. Disponível em: < https://semen.revues.org/9765#tocfrom2n6>.

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