O símbolo e a informação: de Paris à Chicago, escala em Bruxelas

O ponto de vista “simbólico” nos estudos informacionais parece, à primeira impressão, representar um modelo de conhecimento fundado em uma cultura específica: o pensamento francês sugere-nos uma espécie de orientação histórica e contemporânea pontualmente mais preocupado com o conceito e com suas possibilidades de manipulação.

O exame desta condição geoepistêmica nos leva, imediatamente, à noção de mediação e à sua força no pensamento informacional francês. É o caso, por exemplo, da corrente onde se encontra Jean Davallon (2007, p. 5-6).

Para o autor, são necessárias as considerações ao que chama de “gestos simbólicos” nos estudos de mediação da informação, ou seja, uma “operação simbólica de instauração de uma relação entre o mundo do visitante e o mundo da ciência pela-através da exposição da ciência” e a “decisão de alargar o seu emprego [da noção de mediação] à dimensão simbólica do funcionamento midiático da exposição”.

Em um sentido histórico, a posição do simbolismo nos estudos informacionais a partir do discurso francófono torna-se ainda mais evidente: tanto em Paul Otlet (1934) como em Gabriel Peignot (1802a,b), podemos perceber os marcos simbólicos de construção do campo.

Em Peignot (1802a,b) esta noção pode ser percebida, ainda que não formalmente, mas nas entrelinhas de sua visão sócio política no contexto da Revolução Francesa e em seus desdobramentos, bem como no conjunto de artefatos carregados de uma historicidade que escapa totalmente ao materialismo que o “conforma” e se estabelecem semanticamente somente com o simbolismo que os materializa. Isto pode ser visto em verbetes como “escritura”, “artes misteriosas”, “filosofia”. Além disso, na classificação da Bibliologia, Peignot (1802a) indica como ramo de um de seus domínios disciplinas, a Diplomática.

No caso de Otlet (1934), os modos de explicitação do conteúdo simbólico se manifestam em diferentes momentos e através de distintas argumentações – principalmente quando rastreamos a ampla influência de Peignot nos projetos do advogado belga. O modelo mais relevante está na própria constituição do projeto bibliográfico ainda no século XIX: a elaboração de uma política que considera o simbolismo dos artefatos do conhecimento e que promove este simbolismo ao grau mais elevado possível – “como uma religião da troca e do acesso ao conhecimento”. Não coincidentemente o imediato olhar sobre a obra otletiana observa sua devoção ao positivismo e suas “simbolizações” do racional.

Esta linha francesa “se consolida”, enfim, na reapropriação e reelaboração do conceito de Bibliologia pós-peignotiana e pós-otletiana. A construção do projeto bibliológico por Robert Estivals (2000, 2002, 2005, 2007) e sua participação na “terceira geração bibliológica” (ou seja, a geração que sucede Peignot e Otlet e que tem sua grande fase de produção entre 1960 e 2000) demonstra como arte e ciência, conceitos científicos e ideias estéticas, formas pictóricas e fórmulas matemáticas, se relacionam de modo arqueológico a partir do simbólico. Do mesmo escopo de fundamentação da tradição bibliológica em sua terceira geração, assistimos à origem simultaneamente de uma teoria da arte e de uma teoria do conhecimento.

No entanto, as “pegadas” do simbólico na costura do pensamento informacional não tem uma cultura epistêmica única, uma espacialidade pré-constituída e isolada, em sua definição. Quando observamos os modos de construção das instituições informacionais, percebemos uma estrutura fundacional de caráter retórico-filológico que busca, como nas diferentes tradições observáveis em uma epistemologia histórica do pensamento em ciências humanas e sociais, um processo de “positivação” de seu modo de pensar e de manipular o real.

Esse pensamento afasta – na verdade, julga afastar – a “condição simbólica” deste passado retórico-filológico, e funda uma escola de simbolismo pautada na positividade. É o exemplo, na passagem do enciclopedismo sistêmico peignotiano para o sistematismo métrico otletiano, ou, em termos semelhantes, a passagem de uma bibliografia textual tomada como crítica discursiva para uma bibliometria, uma bibliossociometria, no vocabulário otletiano. Na reconsideração das tradições informacionais dispersas e em desenvolvimento entre o Oitocentos e o Novecentos, encontramos, por exemplo, no pensamento estadunidense, elementos rigorosas para a abordagem simbólica.

No escopo da Escola de Chicago, identificamos em Jesse Shera (1977) o diálogo com o simbólico, para quem a linguagem humana é metafórica, tendo por essência a analogia. Deste modo, a uma dada singularidade humana se constitui a partir de sua capacidade de “conceituar a experiência e comunicar as conceituações através da representação simbólica” (SHERA, 1977, p. 10).

"Assim como a necessidade de informação orienta o indivíduo, assim também orienta sociedades. É a base do comportamento coletivo, tanto quanto do comportamento individual. [...] Desse modo, conhecimento e linguagem são inseparáveis, pois a linguagem é a estruturação simbólica do conhecimento em forma comunicável e porque é o instrumento através do qual o conhecimento é comunicado." (SHERA, 1977, p. 10).

As afirmações do epistemólogo atingem algumas aporias da filosofia da linguagem e da filosofia da cultura lançadas por Cassirer (2001) como dilemas de uma teoria do conhecimento que revisita o idealismo, sem condená-lo por completo, mas também sem restaura-lo em sua essência.

"[...] mesmo que o homem pudesse se comunicar – no caso, de indivíduo para indivíduo — através de consideráveis distâncias e de geração a geração, uma simples quebra na cadeia, e a idéia estaria perdida — talvez para sempre. Artifícios mnemónicos, tais como a rima, foram concebidos para auxiliar na preservação desta cadeia, mas quando muito, eles foram insuficientemente eficazes. O segundo grande passo no processo de comunicação veio quando o homem descobriu que era possível, por meio de alguma forma de registro gráfico, transcender espaço e tempo tornando-o independente da memória humana e do contato físico." (SHERA, 1977, p. 10-11).

A construção retórica do real se estabelece aqui, de tal modo, que podemos antever as posições capurrianas, e abordar a aproximação entre Shera e Cassirer, pontuando a ocorrência de “economia” dos “valores simbólicos” sob uma filosofia sensualista – ou aplicada ao mundo das sensibilidades, materialidades, discursos, e, não, dos mentalismos.

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