A revolução não será televisionada: a dialética do labirinto numérico

“— O homem é o senhor.

O general atalhou:

— Eu não existo.”

(GARCÍA MARQUEZ, 1989)

O ano era 1989, o muro de Berlim estava prestes a cair, em menos de um ano um Mac’Donalds foi instalado na praça vermelha e cerca de dois anos depois a União Soviética não exista mais. Do ponto de vista do historiador Eric Hobsbawn , escrevendo em 1994, o século XX terminou em 1991.

Hobsbawn, mesmo tendo falecido no século XXI, não aponta quando, de fato, ele começa. Sem ter esta pretensão, me arrisco a pensar que 1995 é um ano de grande importância para o século seguinte, pois é neste ano que é lançado o sistema operacional responsável pela criação da esmagadora maioria dos arquivos digitais gerados desde então, um certo Windows. Além disso, 1995 é o primeiro ano de uso da internet em computadores pessoais, seguindo os princípios norteadores utilizados até atualmente, ou seja, quando são finalizadas as restrições comerciais, fator que impulsiona a internet para se tornar aquilo que conhecemos.

A frase que dá título ao texto foi proferida por um controverso venezuelano em circunstâncias muito diferentes. No entanto, o ano de 1989 foi evocado por um “fantástico” colombiano, Gabriel García Márquez, neste ano, foi publicado o livro “O General em seu Labirinto”, sobre os derradeiros dias de Simón Bolívar. Como se tratava de uma figura “real”, Gabriel não escreveu este livro com os preceitos narrativos do realismo fantástico. Porém, García Márquez não era historiador e durante a escrita do livro recorreu a diversos cientistas do ramo da história e de outros para redigir com acurácia sobre os seus personagens.

Na primeira edição brasileira, em menos de 3 páginas Gabriel presta agradecimentos e descreve como foi o seu contato com esses profissionais e de que maneira eles repassavam informações tão preciosas.

  • O primeiro listado preparou para ele um arquivo de fichas, gerado após o envio de um questionário.

  • O segundo enviava transcrições de documentos por telex, telefax ou ditando por telefone.

  • O terceiro é agradecido por se manter ao alcance de seu telefone.

  • O quarto forneceu informações históricas de cunho paralelo para o romance que atualmente poderiam ser conferidas até mesmo na Wikipédia.

  • O quinto fez voos urgentes, em sua condição de embaixador, para levar livros esgotados de sua autoria.

  • O sexto também se manteve ao alcance de seu telefone e esclareceu uma dúvida de autoria sobre um poema que só uma memória prodiga poderia informar, mas que não demandaria mais que 30 segundos de pesquisa na internet.

  • O sétimo foi agradecido por conversas realizadas em sua cidade, localizada a milhares de quilômetros da residência de García Marquez, mas que possivelmente poderiam ser feitas por Skype.

  • O oitavo foi agradecido por pesquisas breves, mas de alta especificidade solicitadas por encomenda.

  • O nono e o décimo eram astrônomos cubanos e a seu pedido, elaboraram um inventário das luas cheias nos primeiros 30 anos do século XIX, fazendo uma pesquisa sem sucesso em português e com sucesso em inglês demorei 2 minutos para obter esse inventário.

  • O décimo primeiro é agradecido por enviar cópias analógicas de textos.

  • O décimo segundo é reverenciado por uma atenta revisão, que corrigiu erros de conteúdo que os computadores ainda não fazem, mas fez também o que qualquer Microsoft Word faz desde 1995.

Longe de mim demonstrar desprezo pela ação humana, mas estamos diante de uma revolução que não será televisionada, pois ela se dá pelo computador. Agora que estamos na segunda metade, da segunda década do segundo século de qualquer adulto vivente, parece que ainda não conseguimos empregar, dimensionar e sobretudo valorizar as tecnologias disponibilizadas a grosso modo desde 1995.

1989, o primeiro ano do fim do século XX, está praticamente a completar seus 30 anos, mas as adversidades enfrentadas pelo “fantástico” autor estariam praticamente congeladas até 1995, 22 anos atrás, muito bem conservadas em 2000, 17 anos atrás , extintas ou muito atenuadas em 2005, 12 anos atrás e em 2010, apenas há 7 anos, quase todas as adversidades descritas estariam tão próximas de nulas, quanto atualmente.

A intensidade de transformações causadas pela revolução numérica (para fazer um trocadilho com o francês numérique que explica muito mais do que o termo digital, que se afastou da sua concepção de 0 e1), é de difícil digestão para a geração de seres humanos adultos vivos. Faz no máximo 20 anos que sistemas operacionais de grande disseminação e que a internet estão presentes em grande escala, sobretudo para atividades triviais, nos mais diversos países do mundo, além de aspectos de mais fácil percepção, como diminuição de esforços para fazer cálculos ou textos, diminuição no tempo e custos de envio de mensagens e acesso imediato a informações de toda a sorte, a quantidade de operações hoje consideradas como simples e triviais são altamente revolucionárias, pouco valorizadas e em algumas ocasiões até empegadas em um nível inferior ao que poderiam ser.

Em 1989, buscar simultaneamente pelos termos Márquez + Solidão era impossível, ou privilégio de pouquíssimas bibliotecas de ponta. Atualmente esta operação não é digna de nota. Mas em quantos lugares podemos ter a certeza de que uma busca booleana de fato traz uma representação do real? Quantas bibliotecas, arquivos, museus, com recursos ou não, disponibilizam seus acervos na íntegra on-line ou ao menos em busca local digital, o que dirá de informações e espaços que não são voltados para armazenamento de acervos e organização do conhecimento ?

Enviar um email no lugar de utilizar o disponível serviço de cartas, ainda é uma revolução. Fazer uma transação bancária digital ainda é uma revolução, sobretudo através de um smartphone, passar por momentos constrangedores por causa do corretor automático ainda é uma revolução, tirar mais fotos no reveillon de 2017 do que em todo o ano de 1999, convidar uma pessoa de qualquer país para estar numa banca de doutorado via vídeo conferência, assim como comunicar-se com um parente distante por vídeo, ver a sua casa que foi demolida, ainda inteira no Google Street View um pouco desatualizado, ou o elevado da perimetral de pé, ainda são enormes revoluções dentro de uma maior ainda. Uma revolução informacional, assim como todas as outras, mas também uma revolução do tempo, grandeza inextensível mas que parece que passa cada vez mais próximo da velocidade da luz.

É por isso que devemos ponderar se continuamos nos esforçando em montar um horizonte de expectativas infinito elevado ao cubo, coisa que impulsiona a humanidade mas nos encaminha para a loucura e níveis nunca antes experimentados de ansiedade, ou se concentramos esforços em pelo menos alguns momentos em nossa efemeridade para darmos conta do básico das revoluções da década de 1990, que ainda não foram integralmente implementadas.

Atualmente estão inventariados no planeta 7 bilhões e meio de Homo Sapiens Sapiens. Deste total, um pouco mais de 50% não tem acesso a internet. Então fica a pergunta, para quem é a revolução numérica?

Algumas fontes

GARCÍA MARQUEZ, Gabriel. O general em seu labirinto. Rio de Janeiro: Record, 1989.

HOBSAWN, Eric. Era dos extremos: Companhia das Letras: São Paulo, 1995

KHORSROW-POR, Mehdi. Encyclopedia of E-commerce, E-government and mobile commerce. Hershey: Idea Group reference, 2006.

Informações sobre o uso da internet no mundo: http://www.internetworldstats.com/stats.htm

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