Crítica da razão como crítica da cultura: leituras da epistemologia informacional

O reconhecimento do simbólico que há na “cultura informacional” presente na epistemologia da CI resulta, em nosso ponto de vista, na “consolidação crítica da crítica” ao positivismo e ao neopositivismo dentro do campo.

Porém, ao contrário da disputa entre cognição e pragmática, presente na crítica da última década do século passado, como em Frohmann (1992) e em Capurro (1992), a configuração desta “crítica da crítica” não busca a negação ou a falsa ocultação de um saber positivo dentro do campo – ou seja, não considera, a partir de uma ingenuidade de fundo paradigmático, a pretensa “superação” final do positivismo.

Como demonstra a argumentação do simbólico em Cassirer (2001) - "A crítica da razão transforma-se, assim, em uma crítica da cultura" (CASSIRER, 2001, p. 22) - e outros pensadores do simbolismo, ao contrário do que pode sugerir, o positivismo recolhe, concentra e propaga as “forças” de um subjetivismo que tem origem e tem como foz o simbólico.

Neste sentido, reconhece-se, nesta reflexão, a presença de um devir simbólico não contemporâneo, mas constante em uma epistemologia histórica da CI, que vai da potência da hora do conto nas práticas latino-americanas de divulgação científica ao desenvolvimento de sistemas documentários complexos em ambientes em rede, fruto de uma lógica simbólica cada vez mais íntima dos fundamentos da gramática e da retórica antigas.

Trata-se apenas de considera-lo, o positivismo, enquanto tal. Do mesmo modo – e como razão consequente dessa expressão -, o positivismo e neopositivismo não só não se apresentam como “passado” do campo, como “acontecem”, agora, em diferentes linhas de produção discursiva da Ciência da Informação (basta caminharmos pelo desenvolvimento e pelo aperfeiçoamento dos processos de otimização da recuperação da informação atualmente, em geral, “ilustramos” com terminologias culturalistas, mas centrados em “melhoramentos técnicos”, principalmente nos conceitos de “velocidade” e “portabilidade”, “interoperabilidade” e “interconectividade”).

Os desdobramentos da reflexão, enfatizamos, concluem-se no reconhecimento da relevância histórica – uma arqui constituição do campo, diacrônica -, como em uma relevância em recorrente atualização – um devir permanente, fruto da presença em diversos aportes sincrônicos.

Algumas fontes

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