Crítica e inclusão na formação do bibliotecário... cenários históricos

A Biblioteca Nacional foi a primeira a articular a implementação de técnicas e práticas biblioteconômicas no Brasil. As experiências de instituições estrangeiras com prática biblioteconômica consolidada foram sendo conhecidas e transmitidas aos intelectuais brasileiros e isso trouxe uma mudança que os levou a pensar em uma nova forma de prática biblioteconômica no país (BOTTENTUIT; CASTRO, 2000).

O ensino superior em Biblioteconomia teve a criação do seu primeiro curso no Brasil no ano de 1911 na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Este curso possuía influência francesa e orientação humanística, diferentemente do segundo curso de Biblioteconomia que foi criado em São Paulo no mesmo ano pelo Instituto Mackenzie e que possuía uma visão técnica e voltada aos processos de organização de serviços de informação. (BOTTENTUIT; CASTRO, 2000).

Na década de 1960, foi criado o Currículo Mínimo de Biblioteconomia com o objetivo de padronizar o ensino de Biblioteconomia no Brasil e que foi reformulado e flexibilizado em 1982 e passou por diversas reformulações ao longo das décadas (ALMEIDA, 2012, p. 17).

Segundo Ferreira et al. (1977, p. 94), as demandas sociais da época requeriam um novo tipo de profissional, um agente que interagisse entre o usuário e o acervo, detentor de uma “visão global dos elementos envolvidos no processo de transferência de informação, como conhecer a realidade política e cultural de seu país”. Nota-se que o que é tratado como demandas sociais ainda atende, no contexto do pensamento biblioteconômico brasileiro ali, por um distanciamento vasto sobre as problemáticas sociais reais da condição do povo brasileiro.

A Biblioteconomia brasileira conta com alguns marcos em sua história, ao longo das últimas décadas, que buscaram implementar uma Biblioteconomia que contemple vários aspectos. Entre os marcos, encontramos:

a) a criação da Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários – FEBAB, no ano de 1959, com o objetivo de fixar um currículo mínimo para os cursos de Biblioteconomia do país (SANTOS, 1998);

b) a regularização do exercício da profissão de bibliotecário pela Lei Federal nº 4.084, de 30 de junho de 1962;

c) a criação do 1º Código de Ética Profissional aprovado em 1966;

d) a aprovação das Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de Arquivologia, Biblioteconomia, Ciências Sociais - Antropologia, Ciência Política e Sociologia, Comunicação Social, Filosofia, Geografia, História, Letras, Museologia e Serviço Social, em 2001, estabelecido o Parecer CNE/CES nº 492, de 3 de abril de 2001;

e) E por fim, o estabelecimento das Diretrizes Curriculares para os cursos de Biblioteconomia pela Resolução CNE/CES 19, de 13 de Março de 2002.

Neste sentido, a capacitação dos profissionais se constitui como um dos desafios da Biblioteconomia brasileira. Para Souza (2004), o conjunto entre a formação teórica e a científica ainda não formam bibliotecários com competência política, capacidade de diálogo e visão global da área.

Refletimos que o bibliotecário precisa de uma formação que contemple uma Biblioteconomia mais inclusiva que abarque questões éticas e políticas inerentes ao fazer da profissão e da sociedade. Em grande medida, as transformações do pensamento biblioteconômico no cenário mundial, principalmente a partir dos Estados Unidos, apontam para essa condição de distanciamento da formação crítica e inclusiva.

Algumas fontes

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