A política da lógica booleana

Na zona retórica onde a lógica se faz gramática...

Como nos lembra Auroux (1998), desde o nascimento da silogística aristotélica nós conhecemos uma definição da noção de linguagem formal. Todavia, somente dois milênios depois temos a transformação da abordagem lógica na relação com a abordagem do cálculo. O cruzamento dessas correntes nos conduz ao processamento automático da linguagem. Com Boole, no século XIX, nós entraremos em contato com as primeiras máquinas calculadoras lógicas, ou seja, chegamos à materialização dos princípios silogísticos.

No século seguinte, nós sabemos, encontramos avanços extraordinários nessa máquina. Definida por Auroux (1998) como uma entidade matemática, a chamada máquina de Turing era um sistema leitor de símbolos que representava a classe mais geral de autômatos abstratos. A raiz conceitual de Turing está definida pela noção de algoritmo, um procedimento de cálculo efetivo. Posteriormente, essa noção passou a significar um procedimento que descreve, de modo totalmente explícito, as etapas, em um número finito, que permitem obter um determinado resultado a partir de dados.

Porém, se nos determos apenas à interpretação contemporânea, impregnada pelas visões de aplicação e de uso da noção de algoritmo na web, nós não conseguiremos codmpreender a dinâmica histórica e a expressão política da linguagem aqui contida. Nós ficaríamos retidos, agora, na lógica (e não na Retórica, o problema linguístico-político da Antiguidade socrático-platônica). Não podemos, neste sentido, conhecer a estrutura do trivium por trás dessa caracterização, e o jogo entre gramática (capacidade de criar símbolos para comunicar) e a retórica (capacidade de comunicar, que pressupõe a persuasão) na arena ubíqua do big data.

Nesse contexto, Auroux (1998) nos lembra que uma das maneiras mais simples de compreender a noção histórica do algoritmo, bem como as suas aplicações, é realizar a aproximação aos exemplos gramaticais, ou seja, ao uso cotidiano da língua (modelo que nos leva, pois, a discutir a anterioridade da escrita no dilema simbólico dos nhambiquara).

O uso, por exemplo, que o falante de um idioma faz do passado do verbo “cantar”, a partir do conhecimento do grupo verbal desse mesmo verbo e da sua desinência, permite-nos concluir que ele está adotando um procedimento algorítmico. Ou seja, desde que as listas de paradigmas verbais começaram a ser usadas, adentramos o contexto de aplicação direta de um tratamento algorítmico da linguagem humana. Em um olhar crítico bakhtiniano, já estamos aqui demonstrando os elementos de uma reprodução ideológica do mundo concreto, suas exclusões, seus massacres.

Do mesmo modo, partindo da pressuposição do exemplo anterior, podemos compreender com Aristóteles (1966, 1971) que a Retórica (bem como a Poética) não está nem distante nem em contradição com a lógica. Uma possível separação da retórica (das artes do discurso) da lógica e da gramática seria um caminho errado para a compreensão do problema da linguagem no mundo político (dos segredos à pós-verdade). Seria, pois, isolar a ideologia da máquina cibernética, compreendê-la como um autômato na grande e na micro história. Essa articulação realizada por Aristóteles é fundamental para reconhecer, pois, o papel (opressor) da linguagem em todas as instâncias humanas, a partir da principal delas, no sentido aristotélico, a política.

Referência

SALDANHA, Gustavo Silva. Trivium, arqui-segredos e pós-verdades: Dos arcana imperii ao império simbólico no estado metainformacional. International Review of Information Ethics, v. 26, p. 91-103, 2017. Disponível em: <http://www.i-r-i-e.net/current_issue.htm>. 02 abr. 2018.

Outras fontes

Agamben, Giorgio. (2008). O que resta de Auschwitz. Homo sacer III. São Paulo: Boitempo.

Aristóteles. (2005). Metafísica. São Paulo: Loyola.

Aristóteles. (1966). Poética. Porto Alegre: Editora Globo.

Aristóteles. (1991). Rhétorique. Paris: Gallimard.

Auroux, Sylvain. (1998). A filosofia da linguagem. Campinas (SP): Unicamp.

Bakhtin, Mikhail. (2006). Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec.

Braman, S. (2006). Information, policy, and power in the informational state. In Change of state: Information, policy, and power, pp. 1-8. Cambridge, MA: MIT Press.

Cassin, Barbara. (2005). O Efeito sofístico. São Paulo: ed. 34.

Capurro, Rafael. (1992). What is Information Science for? a philosophical reflection In: Vakkari, P.; Cronin, B. (Ed.). Conceptions of Library and Information Science; historical, empirical and theoretical perspectives. In: International conference for the celebration of 20th anniversary of the department of information studies, University of Tampere, Finland.1991. Proceedings... London, Los Angeles: TaylorGraham. p. 82-96.

Catanzariti, Mariavittoria. (2010). New arcana imperii. Disponible in: <http://escholarship.org/uc/item/81g0030z>. Access 19 jun. 2017.

Latour, Bruno. (2002). Reflexão sobre o culto moderno dos deuses fe(i)tiches. Bauru: EDUSC.

Lévi-Strauss, Claude (1957). Tristes trópicos. São Paulo: Anhembi.

MacLuhan, Marshall. (2012). O trivium clássico: o lugar de Thomas Nashe no ensino de seu tempo. São Paulo: É Realizações.

MacLuhan, Marshall. (2017). La galaxie Gutemberg: la génèse de l’homme typographique. Paris: CNRS Éditions.

Otlet, Paul. (1934). Traité de documenatation: le livre sur le livre: théorie et pratique. Bruxelas: Editiones Mundaneum.

Platão. (1963). Crátilo: diálogo sobre a justiça dos nomes. Lisboa: Sá da Costa.

Platão. (2002). Diálogos: Protágoras, Górgias, Fedão. 2.ed. revis. Belém: Editora Universitária UFPA.

Platão. (2000). Fedro ou Da Beleza. Liboa: Guimarães Editores.

Platão. (2008). A República. 11. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Senellart, Michel (2006). As artes de governar: do regimen medieval ao conceito de governo. São Paulo: Editora 34.

Shannon, Claude. E; Weaver, Warren. (1975). A Teoria matemática da comunicação. São Paulo: DIFEL.

Wiener, Norbert. (1989). The human use of human beings: cibernetics and society. Londres: Free Association Press.

Posts Em Destaque
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square

© 2013 Ecce Liber: Filosofia, Linguagem e Organização dos Saberes. Desenvolvedor: Diogo Xavier da Mata.

Centro de Estudos Avançados em Ciência da Informação e Inovação (CENACIN - IBICT)

CAPES - CNPq - FAPERJ