Os saberes e o simbólico nas feiras de livros

Onde o conhecimento se produz e sob quais condições ocorre esta construção? O histórico olhar dos estudos informacionais sobre os chamados “centros de cálculo” latourianos -, ou esferas institucionais como bibliotecas, arquivos e museus, lugares “privilegiados” por um conhecimento científico - abre, de um lado, a evidência de uma epistemologia devotada à institucionalidade dos regimes de informação acadêmicos, com vasta produção hermenêutica e empírica sobre tais lugares; por outro lado, o foco concentrado em tais “centros” nos permite a compreensão da realidade epistêmica não “prioritária” do discurso informacional: tantos e quantos são os loci de atuação social onde o conhecimento é tecido, quantos e tantos serão os ambientes onde poderemos perceber a produção e a circulação de saberes.

A partir do entendimento de espaços diversificados de produção dos saberes e da informação como ambientes fundados sob interações simbólicas, a proposta mais ampla deste estudo busca discorrer sobre a compreensão das condições simbólicas de circulação e apropriação de saberes no plano do uso dos artefatos informacionais, tendo como foco as experiências urbanas no Estado do Rio de Janeiro. Especificamente, a análise propôs um olhar sob as feiras (aqui, notadamente, as feiras de livro) e suas camadas de produção simbólica de realidade no âmbito dos artefatos informacionais.

Para o presente artigo, interessa analisar como o conhecimento se constrói no locus das feiras de livro, lançando luz na contribuição da interação entre seus sujeitos com o universo informacional para a criação de experiências simbólicas e de produção e apropriação de saberes que ocorrem nesses ambientes. O ponto de vista do interacionismo simbólico aqui evocado responde pela construção de objetos de estudo, no plano da epistemologia informacional, fundados junto do pensamento teórico-metodológico em ciências humanas e sociais que se coloca como alternativa ao posivitismo. Concentramo-nos, pois, nas linhas de argumentação do que Martínez Rider & Rendón Rojas (2004) classificam como “paradigma simbólico”, mais próximo das abordagens hermenêutica, etnográfica e aos estudos qualitativos.

O real é, aqui, pois, pensado como um produto da linguagem e da interação entre os sujeitos históricos, com ênfase para a compreensão cultural dos fenômenos. No plano da epistemologia do campo, por exemplo, encontramos em Jesse Shera (1977) a linha de discussão central no plano simbólico.

Diante dessa “posição simbólica” da proposta, o corpo de estudos desenvolvidos na pesquisa inicia-se em 2011, com foco nas relações entre filosofia (filosofia da informação e epistemologia da Ciência da Informação), linguagem e organização dos saberes, que visam à compreensão das formas de elaboração de uma epistemologia dos estudos informacionais, fundamentando-se na tradição filosófica da linguagem e tendo como horizonte a compreensão dos potenciais mecanismos de aplicação dessas reflexões.

Dessa forma, entre os territórios de aplicação, os estudos iniciados encontraram as feiras de livro como espaços de produção, circulação e apropriação de saberes que permitem um olhar através das relações entre linguagem, filosofia e informação distinto dos modos tradicionais de investigações do âmbito epistemológico da Ciência da Informação, que em geral priorizam os canais formais de produção científica do conhecimento para o entendimento do desenvolvimento dos domínios de ciência, tecnologia e inovação.

Referência

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