Existe diversidade de letramentos digitais sem reflexão crítica sobre a leitura?

A questão proposta no título norteia os dois artigos publicados pelos pesquisadores do Ecce Liber Gustavo Saldanha e Amanda Salomão na International Review of Information Ethics, publicação do International Center for Information Ethics. A reflexão, em inglês e intitulada Can we achieve diversity in digital literacy without a critical reflection on reading?, foi tema de discussão do simpósio de lançamento do volume 30 da IRIE, ocorrido em 22 de setembro de 2021, com o tema “The ecology of literacy diversity in the new regimes of information”.


Buscamos abordar a leitura como instrumento de apropriação de saberes e desenvolvimento de reflexões críticas a partir do diálogo entre Paulo Freire e o bibliotecário russo Nicolas Roubakine. Aqui, partimos centralmente da concepção da leitura enquanto leitura de mundo, capaz de impactar na maneira como os sujeitos pensam, agem e se relacionam com a realidade. De maneira específica, nos interessou refletir sobre a leitura a partir de seu potencial de enfrentamento e resistência aos mecanismos de opressão e exclusão manifestados pelas tecnologias digitais nos regimes de informação contemporâneos.

Sobressaem-se aqui noções manifestadas sobre a maneira em que essas tecnologias, quando utilizadas com más intenções e apropriadas de modo acrítico, poderiam aprofundar e também criar opressões e exclusões via manipulações e construções de discursos e sentidos que preconizam crenças de verdades, isto é, um real que nos é dado de acordo com valores e interesses dominantes.

Na relação direta com a leitura, se pensarmos em sua espessura simbólica, reflexo do sujeito em um dado espaço-tempo, impacto na construção de sentido em torno do mundo social, abordagem já tratada por autorias como Michèle Petit, Pierre Bourdieu, Paulo Freire e Nicolas Roubakine, emerge seu potencial de reflexão crítica daquilo que nos é dado durante o ato de ler. Somado a todas as desigualdades de acesso, relações de poder e interesses políticos e ideológicos que circundam os fluxos de informação na atualidade, os sentidos construídos em torno da leitura poderiam ser aplicados para pensar o mundo social, em toda sua opressão e desigualdade, e então transformá-lo. Em diálogo com a teoria social roubakiniana, seria um caminho que nos levaria em direção a uma sociedade justa, livre e democrática. Uma nova vida.

O bibliotecário russo, expulso da Rússia czarista ao final do século XIX, propõe a leitura e, sobretudo, seu acesso, como elemento chave para o desenvolvimento de uma consciência crítica em grupos sociais historicamente oprimidos contra a alienação. Na relação estabelecida com Paulo Freire, o foco roubakiniano nas classes oprimidas via sociabilização do saber, instrução popular, aponta para os atos de leitura de acordo com os contextos daqueles que leem, que apropriam o que é lido e constroem sentido segundo suas vivências e subjetividades. Aqui, a transformação só poderia surgir a partir do acesso ao conhecimento, da diversidade de experiências do sujeito no mundo e de suas formas de aprender, se alfabetizar a partir de uma intencionalidade crítica que também é percebida no pensamento freiriano, de uma percepção e compreensão da realidade a partir da atribuição de significações e ressignificações diversas. Ou seja, o mundo não é como nos é dado, podemos interferir na realidade e transformá-la.


Certamente, essa reflexão crítica via leitura pressupõe condições sociais de acesso aos instrumentos que possibilitam o desenvolvimento de uma criticidade. Não se trata, portanto, de condenar os dispositivos tecnológicos, mas sim caminhar rumo a uma reflexão crítica sobre as intenções que circundam as construções de discurso, uso, acesso e apropriação que se dão nesses ambientes. A reflexão crítica do que se é lido e apropriado sugere um uso questionador dessas tecnologias, deturpando, subvertendo os sentidos que nos são dados como verdades únicas e imutáveis, reorientando o olhar sobre o mundo social.

Abaixo, deixamos algumas sugestões de leitura e convidamos todes para lerem os nossos artigos, compartilharem e refletirem junto com a gente. Acesse os artigos aqui e o simpósio no Canal do Youtube Escritos IBICT.

Aproveitem para navegar pelas outras reflexões riquíssimas desenvolvidas no volume 30 da IRIE e pelos demais debates abordados no evento.


Sugestões de leitura:


BOURDIEU, Pierre. Leitura, leitores, letrados, literatura. In: BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 2004. p. 134-146.


BOUDIEU, Pierre; CHARTIER, Roger. A leitura: uma prática cultural. In: CHARTIER, Roger (org.). Práticas da leitura. 5. ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2011. p. 231-253.


FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler em três artigos que se complementam. São Paulo: Cortez, 1982.


PETIT, Michèle. A arte de ler: ou como resistir à adversidade. São Paulo: Editora 34, 2009.


ROUBAKINE Nicolas. Introduction à la psychologie bibliologique. Paris: Association Internacionale en Bibliologie, 1998. v. 1.

SALDANHA, Gustavo Silva. Sem e cem teorias críticas em Ciência da Informação: autorretrato da teoria social e o método da crítica nos estudos informacionais, uma bibliografia benjaminiana aberta. In: BEZERRA, Arthur Coelho; SCHNEIDER, Marco; PIMENTA, Ricardo; SALDANHA, Gustavo Silva. iKritica: estudos críticos em informação. Rio de Janeiro: Garamond, 2019. p. 171-231.

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