Produção franco-romena "Trem da vida" foi tema do Cine Ecce


Na sexta-feira, 09 de julho, realizamos o Cinecce, nossa sessão de cinema para debater filosofia, linguagem e ciência da informação. A obra escolhida foi a premiada "Trem da vida", lançada em 1998, uma produção franco-romena, assinada pelo diretor Radu Mihăilean. Na trama, um grupo de judeus, viventes no leste europeu, elabora um ousado plano para escapar da perseguição nazista: fingir que são judeus já capturados e, portanto, precisam ser deportados em uma viagem de trem. Para a tarefa, elegem os papéis que cada um deverá representar, incluindo o oficial alemão nazista, responsável pela suposta deportação.


No decorrer do filme, é possível estabelecer algumas relações com a Ciência da Informação, a Filosofia e as Ciências Sociais. Com a viagem de trem como pano de fundo, os diálogos desenrolam e demarcam os conflitos individuais (dos sujeitos singulares, com seus problemas, interesses, desejos, sonhos) ao mesmo tempo que em vivenciam, de forma intensa, o ser sócio cultural (o indivíduo, cidadão judeu na experiência de um dos episódios mais marcantes da história). O longa é uma alegoria da vida, que discute verdade e existência, diversidade e unidade, lançando mão da ironia, o método socrático aplicado à resistência, no caso, a escolha pelo tipo de narrativa sobre episódios da Segunda Guerra Mundial.

Com altíssima temperatura semiótica, o contexto é atravessado pela ameaça iminente e a pressa decorrente da fuga: homens se reunindo para decidir o que seria feito (quem faria o quê, quem financiaria o plano etc) - todos homens, brancos, integrantes do "conselho de sábios", donde podemos associar à administração da pólis grega antiga. Nesse sentido, o debate de gênero é acentuado na obra, que retrata as mulheres como coadjuvantes, próximas às crianças e de comportamento obediente aos homens líderes do planejamento.

O fator gênero se insere em uma discussão maior que é a classificação: a cada etapa da história, as personagens discutem definição e classificação: "como ser um nazista de verdade?", "o que é ser judeu e por quê os nazistas o odeiam?", "vamos fugir: porcos serão permitidos no trem?", "se não levarmos os potes de doce, como as crianças reconhecerão o tipo de doce apenas ouvindo o nome?", "um judeu pode ser comunista?", "uma pessoa pode ser nazista e comunista ao mesmo tempo?".

Para os estudiosos da linguagem, o filme é rico de elementos simbólicos, especialmente centrados na personagem judeu que encarna um oficial nazista (indumentária, a palavra, os panfletos, as insígnias, os gestos). Em diálogos refinados, examinamos os dois lados da circunstância: como a semiótica impacta a própria personagem, adentrando um universo distinto do dele (parecendo ser o que não é, instituindo-se como verdadeiro por meio da representação), e dos companheiros que, mesmo sabendo se tratar de um teatro, não lidam com isenção na presença desse "quase-nazista-traidor" do grupo.

Para quem é leitor da bibliografia foucaultiana, a figura do "louco" está presente. O louco rejeitado pelo povo por ser diferente, mas o mais sensato, dono das melhores falas do roteiro. A biopolítica tratada na relação entre nazistas e judeus e a micropolítica, entre os próprios judeus com suas pautas identitárias internas, são retratadas visualmente elementos interessantes da densa obra do filósofo francês.

E, claro, não poderia faltar o universo bibliológico - conceito de livro, documento, documentalidade e cultura material. A imagem e a metáfora do livro protagonizam o longa, desde o manual que orienta o condutor do trem (que, na verdade, não sabe conduzir a máquina), passando pelo tópico da leitura como arte, terapia e mecanismo para lidar com a realidade em meio à turbulência, pela a palavra escrita como sinônimo de verdade e de existência (o judeu nazista era o único "sujeito documentado", não marginal), aos panfletos de propaganda alemães e marxistas.

Poderíamos discorrer sobre várias outras passagens, mas a gente está na torcida para que você assista ao filme. Reconhecido internacionalmente, o longa levou o David de Donatello, prêmio italiano de melhor filme estrangeiro, e a categoria Fipresci, do Festival de Veneza, em 1998. Aproveite a semana e depois volte para deixar seu comentário. Sem dúvida, Trem da vida está na lista dos melhores filmes eleitos pelo Ecce Liber.

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