LINGUAGEM E SÍMBOLO: à distância da proximidade

O distanciamento entre o “ponto de vista linguístico” e o “ponto de vista filosófico” proposto por Nef ajuda a compreender a informação, enquanto linguagem-símbolo, dentro das perspectivas paradigmáticas oferecidas por Capurro; que não foram aprofundadas agora, mas em momentos mais apropriados ao longo da pesquisa.

Para compreender as relações entre linguagem e simbolismo, encontramos Todorov (nascido em 1939, filósofo e linguista búlgaro radicado em Paris, na França desde 1963) e Bakhtin (1895 – 1975, filósofo e pensador russo, teórico da cultura europeia), a partir dos quais se pode estabelecer as relações entre os dois conceitos e a informação, conforme aplicado por Rafael Capurro.

É na linguagem que “temos o uso livre e consumado do simbolismo, o registro do pensar conceitual articulado; sem a linguagem parece não existir nada semelhante ao pensamento explícito” (LANGER,1971, p. 111) - Susanne Langer (1895-1985), filósofa americana, grande especialista em filosofia da arte, seguidora de Ernst Cassirer. Um argumento, aliás, que encontra eco em Todorov e propõe uma “solidariedade do simbólico e da interpretação” (TODOROV, 2014, p. 22). Entretanto, ele diferencia “simbolismo linguístico” de “simbolismo tout court”, garantindo ao primeiro maior importância para o estudo, amparado na seguinte justificativa: “[...] os conhecimentos de que já dispomos sobre simbolismo verbal são de uma riqueza incomparável em relação àqueles que concernem a outras formas de simbolismo. (Conhecimentos, é verdade, dispersos em campos tão variados quanto a lógica e a poética, a retórica e a hermenêutica.) [...] porque o simbolismo linguístico é o mais fácil de manejar (de preferência palavras sobre uma página, e não animais de circos ou modos de sociedade), mesmo sendo provavelmente a manifestação mais complexa do simbolismo. Razões então estrategicamente importantes, mas que não devem mascarar a contingência da junção entre “simbolismo” e “linguística” (TODOROV, 2014, p.21).




Para Todorov (2014, p. 16-17), a defesa de sua crença na “existência dos fatos simbólicos” deve-se à recusa de dois pontos de vista bem diferentes: sejam empiristas ou dogmáticos. O primeiro, segundo ele, refere-se a uma “recusa por não reconhecimento” ao fato de que eles (os linguistas), de modo geral, contentam-se em “assinalar que não se ocuparão de casos marginais do uso linguístico”, ou seja, a metáfora, a ironia ou a alusão. Assim, para esse grupo, só existe “aquilo que é perceptível, aquilo que é diretamente oferecido aos sentidos”. O que para Todorov são “princípios de um empirismo caricaturalmente simplificados (sic) numa primeira abordagem, e em seguida assimilados sem reserva”.

Em segundo lugar, há uma visão provavelmente advinda da “recusa romântica das hierarquias”, estas situadas no “seio da linguagem”. Trata-se de uma visão nietzschiana de que “não há sentido próprio, que tudo é metáfora – só há diferenças de grau, não de natureza”. Uma visão onde afirma-se que as “palavras jamais capturam a essência das coisas, só as evocam diretamente”. Para Todorov, “se tudo é metáfora, nada o é”. Ao recusar esses dois pontos de vista, Todorov reafirma sua crença na especificidade e, portanto, na existência de um simbolismo linguístico (TODOROV, 2014, p. 17).

A interpretação do símbolo, segundo Bakhtin (1997, p. 402), “continua sendo ela mesma símbolo, apenas um pouco racionalizada, ou seja, um pouco mais próxima do conceito”. Entretanto, para ele, o “sentido não é solúvel no conceito”. Na leitura bakhtiniana, uma “explicação das estruturas simbólicas tem de entranhar-se na infinidade dos sentidos simbólicos, por isso não pode tornar-se uma ciência na acepção desta palavra quando se trata das ciências exatas”. Embora a uma “interpretação dos sentidos” não possa ser de ordem científica, ela “conserva seu valor profundamente cognitivo”. Pode, ainda, “servir diretamente à prática que concerne às coisas”. É preciso, ainda segundo o autor, citando Averintsev, “reconhecer que a simbologia não é uma forma não-científica do conhecimento, mas uma forma científica-diferente do conhecimento, dotada de suas próprias leis internas e de seus critérios de exatidão”. Para Bakhtin, os “símbolos são os elementos mais estáveis e, ao mesmo tempo, os mais emocionais; referem-se à forma e não ao conteúdo” (p. 409).

Por entender a informação enquanto linguagem-símbolo, os argumentos apresentados por Todorov e Bakhtin foram ao encontro do que Capurro (1991, p. 4) chamou de “paradigma da representação”, onde os seres humanos são observadores de uma realidade exterior e a informação uma forma de codificar da realidade, uma vez que os somos são processadores de informação capazes de utilizá-la, depois de assimilada, por meio da mente/cérebro e posteriormente comunicá-la a outros humanos e não humanos. Nesse sentido, a informação seria “a dupla codificação da realidade” e a CI estaria “relacionada com o estudo da representação, codificação e uso racional da informação”.

Porém, em um contexto hermenêutico os símbolos designam “um modo específico de funcionamento da linguagem”; de modo que um símbolo “é sempre linguagem e não existe antes do homem que fala, mesmo que o seu poder mergulhe as suas raízes em algo mais profundo e anterior à linguagem” (SILVA, 2010, p. 48).

As possibilidades de interpretação da função significativa da linguagem-símbolo, a partir de Paul Ricoeur (2013), são duas, radicalmente opostas, segundo Ceia (2015): por um lado a “hermenêutica da confiança” que acredita no poder prospectivo e revelador dos símbolos, e, por outro, a “hermenêutica da suspeita”, que, por sua vez, acentua o seu poder dissimulador e efetua uma “interpretação redutora e arqueológica de toda a simbólica humana”.

Para Ricouer (2013, p. 77-78), “o estudo dos símbolos incorre em duas dificuldades”. Em primeiro lugar, “os símbolos pertencem a demasiados e excessivamente diversos campos de investigação”. Em segundo, “o conceito de ‘símbolo’ possui duas dimensões” ou, nas palavras do autor, “dois universos de discurso, um de ordem linguística e outro de ordem não linguística.

O símbolo, para Ricouer (p. 78), “remete sempre o seu elemento linguístico para alguma coisa mais”, criando uma “complexidade externa”. O esforço do autor é clarificar os símbolos por meio de uma teoria da metáfora.

Basicamente, o que Ricouer propõe é tentar “[1] identificar o cerne semântico característico de todo o símbolo, por mais diferentes que cada um deles possa ser, com base na estrutura do sentido operante mas expressões metafóricas. [2] o funcionamento metafórico da linguagem permitir-nos-ia isolar o estrato não linguístico dos símbolos, o primeiro de sua disseminação, por meio de um método de contraste. [3] a nova compreensão dos símbolos suscitará, em troca, ulteriores desenvolvimento s na teoria da metáfora que, de outro modo, permaneciam ocultos. A teoria dos símbolos permitir-nos-ia completar a teria da metáfora.” (RICOEUR, 2013, p. 79).

Ao discorrer sobre os momentos semânticos, os não momentos semânticos e os graus intermediários entre metáfora e símbolo, Ricoeur propõe duas proposições contrárias sobre as relações existentes entre metáfora e símbolo. “Por um lado, há mais metáfora do que símbolo; por outro há mais símbolo do que metáfora” (RICOEUR, 2013, p.97).

A primeira proposição se justifica no sentido de que a metáfora “traz à linguagem a semântica implícita do símbolo, o que permanece confuso no símbolo”, uma vez que “a semelhança de uma coisa com outra e de nós com as coisas” ganha clareza na “tensão da enunciação metafórica”. Por outro lado, a segunda proposição se justifica pelo fato de que a metáfora “é um procedimento linguístico”, onde se deposita o “poder simbólico”.

Algumas fontes

ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

AUROUX, S. A Revolução Tecnológica da Gramatização. Campinas: Editora Unicamp, 2009.

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 2a ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

BELKIN, N. J. Information Concepts for information science. Journal of Documentation, London, 34, n.1, p. 55-85, 1978.

BROOKES, B. C. The foundation of Information Science. Part I: Philosophical aspects. Journal of Information Science, v. 2, p. 125-133, 1980.

BUCKLAND, M. K. Information as thing. Journal of the American Society for Information Science, New York, v.45, n.5, p. 351-360, 1991.

CAPURRO, R. Epistemology and information science. Lecture given at the Royal Institute of Technology Library Stockholm, Sweden. REPORT TRITA-LIB-6023. 1985. Hermeneutics and Information. Disponível em: <http://www.capurro.de/trita.htm#III>. Acesso em 12 Dez. 2014.

CAPURRO, R. Foundations of information science: review and perspectives. In: INTERNATIONAL

CONFERENCE ON CONCEPTIONS OF LIBRARY AND INFORMATIONSCIENCE, Finland, 1991. Proceedings… Tampere: University of Tampere, 1991. Disponível em: <http://www.capurro.de/tampere91.htm>. Acesso em: 15 Fev. 2015.

CASSIRER, E. Ensaio sobre o Homem: Introdução a uma Filosofia da CulturaHumana.Tradução de Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Martins Fontes, 2012.

ILHARCO, F. Filosofia da Informação: uma introdução à informação como fundação da acção, da comunicação e da decisão. Lisboa: Universidade Católica, 2003.

LANGER, S. K. Filosofia em nova chave: Um estudo do simbolismo da razão, rito e arte. São Paulo: Editora Perspectiva,1971.

LOGAN, R. K. Que é informação?: A propagação da organização na biosfera, na simbolosfera, na tecnosfera e na econosfera. Rio de Janeiro: Contraponto: PUC-Rio,2012.

McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação: como extensões do homem. Editora Cultrix,1974.

NEF, F. A linguagem: uma abordagem filosófica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

ZEMAN, J. Significado filosófico da noção de informação. In: CUNHA, F.; FELIX, M. (dir.). O conceito de informação na Ciência contemporânea. Tradução de Maria Helena Kühner. v.2. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970. p. 154-179.

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