A ESPESSURA IMPROVÁVEL DA LINGUAGEM: da metafísica da gramática ao simbolismo da informação

A Ciência da Informação teve em suas pesquisas, nas últimas décadas, contribuições de teorias oriundas de diferentes campos. Entre elas, destaca-se um “processo de reorientação de sua epistemologia, voltando-se para uma metarreflexão focada na linguagem” (SALDANHA; GRACIOSO, 2014, p. 05). O deslocamento filosófico, também conhecido como ‘giro linguístico’, se espalhou por diversas disciplinas. Nessa virada, a linguagem ganha centralidade e “é tomada como objeto, como pedra de toque para compreensão da realidade, esteja ela inserida em um discurso mentalista ou fisicalista”.

Os argumentos construídos por esses autores (SALDANHA; GRACIOSO, 2014, p. 27), a partir de uma leitura da Filosofia da Linguagem e da CI na América Latina, conduzem a possibilidade de existência de um “pragmatismo informacional” que acontece dentro de uma “teoria simbólica das ciências sociais e humanas”, o que sugere a articulação de atividades hermenêuticas e etnográficas, baseadas em metodologias qualitativas.

Cabe ressaltar que, sendo “a linguagem o meio em que as conversas ocorrem” e o “meio pelo qual compreendemos”, conforme Schmidt (2013, p. 188), partindo de Gadamer, sintetizou, uma “disciplina hermenêutica do questionamento e da investigação pode garantir a verdade sem se basear o método científico”.

Nef (1995) destaca grandes temas da filosofia da linguagem. São eles “a condição metafísica da gramática”; “a relação entre lógica e linguagem, entre linguagem e pensamento, entre linguagem e realidade” e “a origem e a natureza da linguagem”. Para ele, é necessário diferenciar o “ponto de vista linguístico” do “ponto de vista filosófico”, pois o segundo tem uma “dimensão crítica”. Afinal, se por um lado a linguística se interessa pela significação, excluindo as versões “radicalmente comportamentalistas”, por outro, a filosofia se põe a interrogar sobre as “condições da possibilidade da significação”. E, para diferenciar, ele argumenta que para que haja uma discussão do tipo filosófico, pelo menos dois dos itens que se seguem devem estar combinados:

  • Superação do conceito empírico de língua por um conceito geral de linguagem, passagem da diversidade das línguas para a unidade da linguagem. O linguista descobre universais da linguagem ao fim de uma análise formal e de uma descrição comparativa; o filósofo propõe universais formais.

  • Existência de uma problemática da origem da linguagem, enquanto a linguística exclui explicitamente essa questão do seu campo.

  • Estabelecimento de uma relação entre linguagem e as operações do espírito, mais precisamente entre linguagem e pensamento, ao passo que essa relação é afastada da linguística (e, para esta, liga-se ao psicologismo).

  • Problematização da questão da realidade pela linguagem enquanto a linguística estrutural elimina a realidade do seu campo.

  • Avaliação da linguagem como instrumento de ações cognitivas (raciocínio, expressão das emoções etc.), podendo ir até a crítica da linguagem natural (NEF, 1995, p. 8-9, grifos nossos).

Para ele, “é a conceituação que, sempre, marca o caráter filosófico, e enfim, não se deve ter uma concepção demasiada estreita da filosofia da linguagem”. E destaca que, embora na história da filosofia, em muitos casos, “os cortes são situados em relação à emergência e à realização da razão”; no âmbito da filosofia da linguagem, “o verdadeiro corte se situa no século XIV, com o aparecimento do nominalismo radical, e mais tarde pelo aparecimento da linguística e da lógica formal simbólica, no fim do século XIX, com Frege”, muito embora já existisse uma lógica formal desde Aristóteles.

Seguindo a análise proposta por Nef (1995, p. 161), conclui-se que emergiram ao longo da história das teorias filosóficas da linguagem muitos temas. A questão “metafísica da gramática”, segundo ele, está fortemente presente na questão da categorização (diferenças nome-verbo, partes do discurso etc.) e mostrou que “as grandes categorias gramaticais e semânticas são solidárias de uma conceitualização metafísica”. Já na “relação entre lógica e linguagem”, Nef (1995, p. 61) argumenta que houve uma evolução que resultou “progressivamente em uma lógica da linguagem natural, desde a doutrina dos termos, em Platão, à noção quiniana[1] de paráfrase”. Sendo a lógica uma linguagem e não apenas um cálculo, o autor argumenta que “a relação entre lógica e linguagem não é uma relação de exterioridade”. Desse modo, essa relação se daria entre dois tipos de linguagem, “o primeiro desprovido de imprecisão e de ambiguidade, construído para exprimir simbolicamente o raciocínio correto, científico e principalmente matemático; o segundo, imperfeito para exprimir o raciocínio, adaptado a imprecisão da comunicação cotidiana. [...]; “A procura da essência da linguagem, da sua significação para a humanidade é inseparável de um aprofundamento do logos como lógica. Se o homem é o animal que sabe falar, é também, segundo Aristóteles, o animal que sabe raciocinar logicamente, construir normas lógicas do seu próprio raciocínio. As atividades que consistem em dizer as coisas, em raciocinar e em refletir sobre o raciocínio correto são todas as atividades lógicas, no sentido de atividades do logos humano, são aparentadas, e o divórcio fundador de uma ciência da linguagem diante da lógica deve ser reservado à história dos métodos empíricos de descrição das línguas.” (NEF, 1995, p. 162, grifo nosso).

Para Nef (1995, p. 162), uma mutação na relação entre lógica e linguagem teria menos a ver com uma “emancipação das ciências da linguagem” do que a mutação da própria lógica. Para ele, com a teoria das descrições de Frege, um “novo regime de estudo lógico da linguagem” estaria iluminando, forte e decisivamente, as “capacidades da linguagem de referir e significar”. E considera notável que “a teoria das descrições” tenha inspiração nessa lógica renovada sem deixar de se preocupar com um clássico problema da “referência das entidades não existentes”.


[1] Willard Van Orman Quine (1908-2000) foi um filósofo americano considerado por muitos o grande filósofo americano do século XX. Ao longo de suas obras ele propôs um empirismo moderado. Sua principal obra é Palavra e Objeto (1960).

Algumas fontes

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