Cinecce discute teorias da Linguagem com o filme "A Chegada"


Baseado na obra "Story of your life", de Ted Chiang, de 1998, o filme "A chegada" é uma ficção científica lançada em 2016. Se você ainda não assistiu, não continue a leitura. Se você já assistiu, talvez o texto te faça querer ver de novo porque foi o que aconteceu conosco: elegemos o longa para a última sessão do Cine Ecce e saímos com várias perguntas. Mérito do diretor Denis Villeneuve.


O longa conta sobre a chegada de naves extraterrestres em diferentes pontos do planeta. As naves ficam suspensas no ar e não permitem qualquer visibilidade de seu interior. Rapidamente, forças armadas e governos iniciam protocolos de segurança. Mas, o que fazer em relação a seres que não se comunicam como os humanos? A primeira reação é a de força, já indicando como os humanos foram acostumados a reagir ao que lhes é diferente: com medo.


Após evacuar os locais de pouso nos EUA, os militares convocam dois pesquisadores de relevo: a linguista Louise Banks (Amy Adams) e o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner). A partir desse momento, o filme gira em torno deles e dos alienígenas. Físico, Donnelly está interessado no que pode descobrir acerca do espaço sideral e, quem sabe, reescrever a história. Linguista, Banks não só está curiosa pela situação como está atônita: a linguagem é um poderoso instrumento de guerra - e um conflito mundial estava prestes a começar.


Poliglota, acostumada a prestar consultoria de tradução em situações complexas, Banks é pressionada pelos militares para responder às seguintes questões: quem eles, os aliens, eram, de onde vieram e como chegaram à Terra. Governos de vários países tentavam decifrar tais questões para decidir se atacariam as cápsulas ou não e de que forma uma proteção seria possível, já que os materiais bélicos também poderiam ser diferentes. A mensagem era clara: a raça humana seria dizimada ou não?

"A língua é o alicerce da civilização. É a cola que une as pessoas", afirma Banks. Uma frase que poderia facilmente ter sido retirada de qualquer artigo da Biblioteconomia ou da Ciência da Informação.


Aqui começam as aulas sobre história da linguagem: não falar a língua dos extraterrestres significava não entender sua constituição como ser, como coletivo, seus valores, ideais, comportamento, desejos e medos. A tradução nunca é a troca de uma palavra por outra: é uma mudança de perspectiva. Mas, o desafio de Banks era mais difícil... não havia o que traduzir porque não havia alfabeto, ou números. O primeiro problema era saber por qual unidade básica da linguagem eles fariam contato. Banks começou por gestos, sons, imitação (tal como preconiza alguns pensadores: Aristóteles e Herder, por exemplo).


Ao estabelecer as primeiras comparações, Banks explica aos militares: em uma frase, o nós pode significar o grupo daquele momento, como a quantidade específica de uma nave, significar as doze naves pousadas na Terra, como pode significar a coletividade daquela raça alienígena. O que exatamente eles entendem por "eu" e "nós"? Era necessário expandir vocabulário, identificar verbos, intencionalidade.


Conforme os dias passaram, os pesquisadores compreenderam que eles não formavam frases partitivas como as nossas línguas latinas e anglo-saxônicas. Eles dialogavam por sons e imagens temporárias, feitas de uma substância fluida saída de seus corpos. Formas circulares, com nuances que podiam fazer toda a diferença entre paz e guerra, solidariedade e morte.

Uma das teorias linguísticas norteadoras do filme é a de Sapir-Whorf, nascida no século XX, por meio de Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, que afirmavam o determinismo do idioma e da cultura para formação da cognição humana. Em outras palavras: pensamos a partir da linguagem que aprendemos enquanto ser social, em um dado contexto. À parte das minúcias teóricas que divergem do pensamento de um de outro, outros pesquisadores abordam elementos semelhantes, como Humboldt, Heidegger, Vygotsky e, de certa maneira, também Wittgenstein por meio do conceito de jogos de linguagem.


"A chegada" não é apenas sobre o falar, é sobre como percebemos a comunicação, como "somos" via comunicação e como percebemos o tempo a partir da estrutura dos nossos sistemas de linguagem disponíveis. Os extraterrestres não só se comunicavam de maneira diferente quanto percebiam o tempo de um outro modo. Esse ponto também é interessante, já que ainda hoje concomitantemente vivemos em tempos distintos a depender do ponto de vista: pelo fuso horário, pelo calendário, pela religião. Em termos filosóficos e científicos, o tempo é, há muito, um desafio que os físicos tentam resolver. Santo Agostinho, Newton, Einstein, Hawking. E, no filme, Banks (e não Ian).


Da perspectiva da CI, janelas se abrem sobre a dimensão sociocognitiva da leitura, da informação, do conhecimento, os significados e a materialidade dos documentos, dos vocabulários, a estrutura de uma sentença escrita ou oralizada - sobretudo o papel da linguagem para a memória. Ou como diria Shera, a biblioteconomia como a "ligadora do tempo".


Se Banks e Ian, finalmente, conseguem conversar com os extraterrestres? Bom, não vamos acabar com a surpresa.

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