Tableau: o esquema em Gabriel Peignot

O conceito de “esquema” não aparece no pensamento de Gabriel Peignot objetivamente. A ausência de explicitação do termo não necessariamente nos leva à negação ou à identificação de negligência conceitual. A noção tableau sustenta a argumentação peignotiana naquilo que, futuramente, no século seguinte, Paul Otlet e Robert Estivals considerará como “esquema”.

Por tableau, quadro ou descrição, compreendemos genericamente suporte (de escrita, como um quadro-negro, ou de qualquer objeto). O termo responde também por uma possível “tabela” (como tabela de avisos), obra pictórica, aquilo que está disponível para visualização. Outras acepções expandem o caráter genérico do tableau respondem pela ideia de descrição oral ou escrita e disposição gráfica de dados. No sentido editorial, o vocábulo responde pela ideia de composição com números ou textos através de colunas.

Em um sentido contemporâneo, no vocabulário computacional, tableau responderá por um conjunto estruturado de informações organizadas sequencialmente na memória do computador, incluindo cada elemento que pode ser identificado pelo seu número de série ou índice. (LAROUSSE, 2014)

Se o termo “esquema” (schéma) e sua variação atentada por Estivals (schéme) não aparecem em Gabriel Peignot (1802a,b), em contrapartida, a noção aproximada de tableau se desdobra no discurso peignotiano nos dois volumes de seu Dictionnaire raisonné de bibliologie.

A noção aparece em Peignot (1802a,b) desde a visão de organização das ideias (uma noção subjetiva do esquema), como na enunciação (apresentação descritiva) de ideias em algum suporte. Em seu verbete caractere, tipificado como verbo grego que indica esculpir, imprimir, gravar, futuramente conhecido como letra de um alfabeto, Peignot (1802a, p. 139) apresenta um tableau approximatif que trata da quantificação das letras.

O uso de Peignot (1802a,b) da noção é interessante para reconhecer os potenciais de apropriação da ideia por trás do vocábulo. Por exemplo, existe na visão peignotiana a compreensão da facilidade de sintética e analítica que os “quadros” permitem. O princípio intelectual da comparação é objetivamente “qualificado” diante do potencial do tableau. Na discussão sobre o uso de caracteres, por exemplo, em Cícero, Peignot (1802a, p. 145) destaca que “tais questões” “peuvent être facilmement résolues par ce tableau” (quadro de síntese de comparativa a partir de Cícero).

A ideia de tableau é usada também, em diferentes momentos na obra peignotiana (PEIGNOT, 1802a,b), para a identificação do processo abstrativo de reconhecimento e classificação das ciências. É o caso da menção a bibliotecário Louis-François Daire, que teria composto um tableau historique des sciences, belles-lettres et arts de la province de Picardie. (PEIGNOT, 1802a, p. 200). Esta noção, de tableau como processo e produto da classificação, aparece ao longo de toda a obra (seja na classificação das ciências, seja na classificação do tempo, das línguas, da história, etc.).

Este processo (e produto) classificatório colocado sob a noção de tableau se multiplica no verbete système bibliographique (PEIGNOT, 1802b, p. 201). Aqui são apresentados o conjunto de “quadros” do conhecimento humano, ou seja, a “imagem” destas classificações; ao mesmo tempo, trata-se de apresentar a exposição do modo de construção destes “quadros”.

Outra aparição importante do vocábulo tableau em Peignot (1802a, p. 216) está na relação com o conceito de tableau synoptique. No verbete Etymologiste, discutindo as funções teórico-históricas do etimólogo, apresenta-se o destaque na necessidade de construção de um quadro sinótico ou espécie de alfabeto universal, com sons e letras simples que permitem esta formalização.

A ideia do tableau synoptique termina por sustentar a proposta monumental da obra: reconhecer, organizar e classificar a Bibliologia, ou ciência geral do livro. Ao término da obra, como apêndice, Gabriel Peignot (1802a, p. 473) apresenta o Tableau synoptique de Bibliologie ou apperçu méthodique de toutes les parties essentielles qui composent cette science.

Peignot (1802a, p. 473), em nota de rodapé, destaca que o tableau da Bibliologia é resultado de um trabalho sinótico detalhado: trata-se de uma profunda e metódica classificação das ciências bibliológicas, discriminadas em todas as suas partes. Nas palavras peignotianas, trata-se de definir uma verdadeira enciclopédia em um só tableau.

Percebe-se aqui a relação entre método e resultado, entre abstração e apresentação, entre imaginação e imagem, presente na produção do pensamento peignotiano sobre a ideia de tableau, diretamente relacionado com o conceito de “esquema” em Paul Otlet (1934).

Algumas fontes

ESTIVALS, Robert. Theorie lexicale de la schematisation. Schéma et schématisation: revue de schématologie et de bibliologie, n. 52, p. 5-72, 2000.

OTLET, P. Letter from Paul Otlet, 24 march 1895. In: VANN, S.K. Melvil Dewey: his enduring presence in Librarianship. Littleton (Colorado): Libraries Unlimited, 1978a. p. 189.

PEIGNOT, G. Dictionnaire raisonné de bibliologie, tomo I. Paris: Chez Villier, 1802a.

SALDANHA, G. S.. O esquema e as formas simbólicas: uma 'arqueologia filosófica' do esquema no pensamento bibliológico. Tempo Brasileiro, v. 203, p. 79-102, 2015.

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