Entre "classificação", "taxonomia" e "ontologia": a âncora bourdieusia

Em uma primeira observação socioepistêmica, o que está por trás do jogo dos termos “classificação”, “taxonomia” e “ontologia” presentes no vocabulário informacional não é a delimitação, em uma “epistemologia casta”, do teor ilibado do “conceito científico”; não chegamos, pela via do termo “ontologia”, à acuidade semântica, de justificativa lógica, para substituição ou co-constituição diante do termo “classificação”.

O que temos é um processo de “culto” à tecnologia e sua expressão de distinção – uma espécie de arché da “roda metafísica” (uma metafísica de inspiração iluminista e positivista), que pode ser compreendida como a “fé” na técnica como categoria de distinção entre os “seres epistêmicos”, homo academicus pósiluministas, e os “seres nãoepistêmicos”, ou, para adotar o termo filosófico em sua aparição, respectivamente, “indivíduos ontoepistêmicos” e “indivíduos doxaepistêmicos” – nas palavras de Bourdieu (2013, p. 44), “indivíduos empíricos” e “indivíduos epistêmicos”.

O conjunto de perguntas extremas, ou o horizonte mais abissal deste estudo, longe ainda de buscar uma resposta socioepistêmica que permita esclarecer a fratura crítica ocultada nos estudos informacionais, está, no que diz respeito à transposição do discurso informacional estadunidense para a América Latina, na busca pela resposta à questão geral: por que tantas mulheres, tantos negros e tantos pobres (e outras classes de “pretensas”“minorias”) estão presentes em escolas, institutos e centros de Ciência da Informação no Brasil e não chegam aos “postos” de docentes e teóricos do campo?

A resposta não poderia ser dada por um discurso simplista que reduziria o fato aos problemas brasileiros de “formação da distinção” em sua totalidade, pois isto anularia qualquer possibilidade crítica de análise do lado “epistêmico” de uma “socioepistemologia”.

Em outras palavras, seria uma ingenuidade não creditar ao “país” (seus dilemas socioeconômicos e raciais históricos, por exemplo) como fator propulsor de “distinções” no sentido bourdieusiano, mas outra ingenuidade seria rebaixar hierarquicamente a ciência a ele (ao Estado), uma vez que a questão é anterior à própria ideia dos Estados-nação – o campo científico, no sentido boudieusiano aqui abordado, seria complexo e mutante na medida em que “encerra em si” dinâmicas inestancáveis (como os diálogos de um campo científico com outro; o maior ou menor aproximação com o mercado ou com a sociedade civil; a circulação de pesquisadores por países diferentes). Isto não significa deixar este último elemento, o Estado, por sua vez, inferior enquanto categoria analítica (principalmente pelas relações indissociáveis entre Ciência Moderna e Estado Moderno).

Pensar o “campo científico informacional brasileiro”, diferentemente do “campo científico francês”, um foco central da análise bourdieusina, representa um movimento sócioepistêmico em sua estrutura radicalmente distinto, como distinta é a elaboração do campo científico informacional nos Estados Unidos (objeto parcial deste estudo). O que reconhecemos é o jogo entre “temporalidade-espacialidade” das sociedades e a “pretensa epistemicidade” do “mundo dos cientistas” (ou seja, daqueles que se dizem “cognoscentes” no interior das academias, dos livros e dos periódicos científicos, das línguas de especialidade e demais instituições de poder simbólico tecidas pelo h omo academicus ), sem qualquer predeterminação hierárquica, que permitiria nos levar às respostas prudentes para o problema.

Este conjunto de respostas não pode ser dado, ainda, em hipótese alguma, em termos numéricos. A razão está no fato da paisagem social brasileira remeter a “transcategorias” e “classificações vertiginosas”, que nos conduziria ao trato, no cenário acadêmico, de “mulheres epistemicamente masculinizadas”, assim como “negros epistemicamente clareados”, ou, ainda, “pobres epistemicamente elitizados” (de qualquer modo, não há dúvida, até o presente momento, mesmo na seara quantitativa aparente, tal condição já se apresenta como ponto de discussão imediato).

Enfim, estas “transcategorias” são, na verdade, fruto do diálogo e da apropriação dos resultados do estudo de Pierre Bourdieu sobre “distinção” e sobre o “campo universitário”,aqui conduzidas ao “campo informacional estadunidense” (significado, aqui, pelas escolas e instituições que afirmam “ser” de “Ciência da Informação”), conjugados com suas análises do“social” na “ciência” (mais precisamente, das intervenções da construção social da epistemologia), demonstrando a complexidade e a heterogeneidade dos processos de pré e pós elaboração distintiva epistêmica.

Algumas fontes

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