Etnobibliografia: na carne do livro aberto...

As fotografias taffinianas acompanham o projeto “Livro,” de Melot ao longo da arquitetura do discurso que se estabelece no texto: da folha de guarda que “preserva” a falsa folha de rosto, ao desdobrar-se da cadeia de reflexões, aparentemente lineares, as imagens ajudam a contar a cultura que se revela na passagem do gráfico para o bibliográfico, figurando-se entre “E o verbo se fez livro...”, “Assim pensa a dobra”, “O adeus ao verbo”, “A quadratura”, “Profetas e mercadores”, “No país da página”, “O amor e o ódio”; “Os livros que não se leem”; “A carne e o fim”.

Figura 1. Amostra de fotografias de Nicolas Taffin

Fonte: MELOT, Michel. Livro,. Cotia (SP): Ateliê Editorial, 2012

Nicolas Taffin é apresentado como um “apaixonado pelos suportes da informação”, “dividido entre a letra e a imagem”. Atuando com desenho gráfico, o artista dedicou-se à comunicação cultura e científica em formatos multimídia, desenvolvendo novas concepções de interfaces no contexto de publicações on line. (MELOT, 2007)

No decurso da narrativa imagética de Taffin dentro do “Livro,” as coleções de Jacques Doucet, da Biblioteca do Instituto Nacional de História da Arte, se tornam ao mesmo tempo o espólio de uma guerra e a memória em carne de uma sociedade; a obra La maison des feuilles se consagra como a divisão de duas civilizações ou a paisagem inóspita de dois mundo ainda por vir; a dobra em seu movimento de dobradura registada no título Le Songe de Poliphile resulta no maquinário bibliográfico em movimento, transformado e transformador da realidade que o concebe e a inventa.

As imagens de Taffin procuram revelar o desejo que há na bibliofilia em sua carne mais múltipla possível: mineral, animal, vegetal, eletrônica, a paixão pelo conhecimento registrado parece não ter fundo, não ter volume, não ter espessura, não ter textura exata que lhe configure a supremacia. Tal paixão se apresenta multifacetada quando tratamos da paisagem em rede do mundo eletrônico e do culto intensivo e extensivo das tecnologias da linguagem em curso, seja um culto ao continente, seja um culto ao conteúdo.

O modo como os olhos hodiernos miram as vitrines com smartphones sentados em “tronos” devidamente desenhados e construídos para recebe-los, em lojas de shopping centers ou dos grandes centros urbanos sugerem um fascínio tão grande pelo continente quanto o gesto polissensível de exploração das listas intermináveis de dados apresentados nos mesmos smartphones que são lidos simultaneamente, em uma cinética impressionante, pelos polegares e pelos olhos.

Algumas fontes

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MARTELETO, R. M. 'Lugares de Signos' e contextos de informação: A Biblioteca como metáfora dos conhecimentos modernos. Revista de Biblioteconomia de Brasília, Brasília, v. 20, n.20, p. 241-246, 1996.

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MELOT, Michel. Livro,. Cotia (SP): Ateliê Editorial, 2012.

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