Espírito, forma interna e informação: Cassirer, simbolismo e epistemologia informacional

A partir da proposta de compreensão de parte ínfima, mas não ausente de singularidade, do complexo pensamento de Cassirer, detemo-nos aqui a recordar, concisamente, alguns elementos nucleares da relação entre linguagem e simbolismo presentes na obra do autor. Isto nos leva a optar pela extração de algumas citações clarificadoras de sua elaboração conceitual.

Sem elas, a possibilidade de interpretação das consequências diacrônicas e sincrônicas do pensamento informacional historicizado na Retórica, como realizado por Rafael Capurro, não fariam, em nossa visão, sentido algum – muito menos viriam portadas de sentido as correlações estruturalistas e pós-estruturalistas vinculadas aos simbólico na Ciência da Informação, como linhagens bourdieusianas e meadianas aplicadas à abordagem informacional.

Não nos detemos aqui na crítica anti-kantiana, mas é-nos necessária considerar na apropriação do há de Kant em Cassirer. O problema central, que nos demandaria outra reflexão, estaria na noção de “espírito” em Kant e na apropriação da mesma em Cassirer. Em poucas palavras, tentamos ver menos o pensamento cassireriano devedor do kantismo e mais o pensamento cassireriano em diálogo como o mundo do Oitocentos e do Novecentos, principalmente com a multiplicidade das possibilidades de investigação sobre a linguagem abertas neste contexto pós-kantiano. O mergulho central, deste modo, na presente apropriação do pensamento de Cassirer, está no longo estudo sobre linguagem e simbolismo, primeira parte da construção de sua “filosofia das formas simbólicas”.

O problema que se apresenta, centralmente, está, além da noção de “espírito”, em subnoções ou conceitos complementares, como “forma interna”, presentes em Cassirer e claramente devedores de Kant, porém dificultuosos para uma análise da externalidade do simbólico enquanto produção coletiva e intersubjetiva, antes de subjetiva.

Em outros termos, tentamos, na medida do possível, perceber em Cassirer menos a questão da condição a priori (o idealismo kantiano na posição da filosofia cassireriana) de uma certa “forma interna” para religião, mito, arte e ciência, e mais a construção da “forma externa” que se volta para uma “internalidade”, esta, sempre “intersubjetivada”. Parte da crítica que aqui realizamos é dada na tentativa de não ver em Cassirer uma visão cadeia do simbólico já presente no Organon aristotélico, ou seja, a noção de que as palavras faladas são símbolos de afecções da alma e, por sua vez, a escrita se constitui como símbolo das palavras faladas.

Ao lado da pura função cognoscitiva, é necessário compreender a função do pensamento linguístico, do pensamento mítico-religioso e da intuição artística, de tal modo que se torne claro como em todas elas se realiza não exatamente uma configuração do mundo, mas uma configuração voltada para o mundo, visando a um nexo e a uma totalidade objetiva da percepção. (CASSIRER, 2001, p. 22, grifo nosso)

Cassirer não “separa” em absoluto, assim, a cultura da construção de uma atividade espiritual.

"Com efeito, o conteúdo do conceito de cultura é inseparável das formas e orientações fundamentais da atividade espiritual: aqui o ‘ser’ somente pode ser apreendido no ‘fazer’, ou seja, na ‘ação’. Apenas na medida em que existe uma orientação específica da fantasia e intuição estéticas, passa a existir também uma esfera de objetos estéticos – e o mesmo é válido para as demais energias espirituais em virtude das quais um determinado universo de objetos adquire forma e contornos." (CASSIRER, 2001, p. 22, grifo nosso)

Reúne-se, pois, elementos como epistemologia e mitologia em um complexo inseparável por construção, apenas distinto por intenção epistêmica.

"[...] apesar de toda a sua diversidade interior, os vários produtos da cultura espiritual, tais como a linguagem, o conhecimento científico, o mito, a arte, a religião, tornam-se parte de um único grande complexo de problemas – tornam-se múltiplas tentativas direcionadas, todas elas, para a mesma meta de transformar o mundo passivo das meras impressões, que em um primeiro momento aparentemente aprisionam o espírito, em um mundo de pura expressão espiritual." (CASSIRER, 2001, p. 23, grifo nosso)

Interessa-nos reconhecer como esta visão, mesmo com sua força neokantiana, apresenta em Cassirer (2001) diálogo pontual com os estudos sobre a linguagem e suas formas de produção do “cultural”. Em suas palavras,

"Assim como a moderna filosofia da linguagem, ao buscar o ponto de partida adequado para um estudo filosófico da linguagem, elaborou o conceito da ‘forma linguística interna’, pode-se dizer que é igualmente lícito procurar e pressupor uma ‘forma interna’ análoga para a religião e o mito, para a arte e o conhecimento científico." (CASSIRER, 2001, p. 23, grifo nosso)

Pensamento, filosofia, ciência, tem uma fundação, antes da fundamentação, em relações intrínsecas e extrínsecas com, para e na linguagem.

"A ciência tem sua origem em uma forma de reflexão que, antes de poder afirmar-se e impor-se, vê-se obrigada em toda parte a entrar em contato com aquelas primeiras associações e divisões do pensamento que encontraram a sua primeira expressão e concretização na linguagem e nos conceitos linguísticos gerais." (CASSIRER, 2001, p. 24, grifo nosso)

A possível passagem de uma centralidade ou prioridade kantiana em Cassirer (2001) para uma compreensão de uma realidade simbólica, ou de um espírito que está no “entremundo” das manifestações simbólicas, ou, ainda, que só acontece enquanto tal, pode ser pensado a partir do que o filósofo trata como “forma linguística do pensamento” – em seus termos, “A crítica da linguagem e da forma linguística do pensamento torna-se parte integrante do ascendente pensamento científico e filosófico. O processo típico desenvolvimento repete-se em todos os outros campos”. (CASSIRER, 2001, p. 25)

A aplicação desta cosmovisão casseriana pode ser pontualmente esclarecida no pensamento de Santos (2007).

"Toda acção noética humana consiste em unir ou separa. Assimilação é sempre unificadora, porque ao adequar o facto ao esquema, fusiona-o intencionalmente com este. O objeto é virtualizado para actualizar, propriamente, o esquema que é afirmado. Conhecer, portanto, é desconhecer a singularidade enquanto tal, para conhecer o conhecido. O que resta do objecto é que o objecto é do esquema." (SANTOS, 2007, p. 144, grifo nosso)

A relação noética estabelecida entre homem e mundo se constitui, assim, como uma espécie cassireriana de metaformação simbólica. Em outras palavras, “A construção dos símbolos tem sua raiz afectiva. A razão, ao trabalhar com símbolos, despoja-os do aspecto irracional, que é afectivo [...]”. (SANTOS, 2007, p. 145). O complexo processo de simbolização, dinâmico em sua efetivação, anima o real, o forma, conforma, disforma, transforma. Resultado imediato de tais processos, os artefatos produzidos pelo homem, “coisas informacionais” ou “coisas passíveis de informar”, máquinas de dar forma ou de prever a forma ou, ainda, de transportar a forma, tornam-se objeto de uma ciência que se estabelece na linguagem, como na visão de Capurro (1992), e se desenvolve do e para o simbólico.

Algumas fontes

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