Cinecce debate "Jojo Rabbit" sob a ótica da CI


Crédito: Divulgação IMDb

A arte é sempre uma aliada para debater ciência e filosofia. No dia 30 de julho, nos reunimos para assistir ao longa Jojo Rabbit, filme ganhador do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado em 2020. Poderíamos falar sobre a estética da obra, a colorização, a atuação impressionante do jovem Roman Griffin Davis e a direção excelente de Taika Waititi, mas nosso foco aqui é a Ciência da Informação (CI) e como Jojo Rabbit pode ser um produtivo meio de debate sobre nosso campo de trabalho.


O enredo é baseado no livro O céu que nos oprime, de Christine Leunens, que conta a história de Johannes, uma criança que sonha em ser soldado nazista. Membro da Juventude Hitlerista, Johannes se vê em um dilema ao descobrir uma menina judia escondida em sua própria casa. Na versão cinematográfica, Waititi inseriu Hitler como o amigo imaginário de Jojo, de apenas dez anos de idade.


Satírico, o filme revela pontos importantes na construção do ideal nazista: a repetição dos gestos, saudações, símbolos do uniforme, militarização e as notícias falsas, um tema atualíssimo. A discussão racial e étnica é intensa e atravessa todo o filme. Jojo foi ensinado que judeus eram monstros que deveriam ser aniquilados. Ao encontrar uma judia em sua casa, um ser humano como ele, sua mãe, seu pai e sua irmã, Jojo é confrontado em sua própria cegueira: o que os judeus teriam, de fato, de diferente? E por qual motivo deveriam ser mortos? Assim, começam os diálogos sobre classificação (as definições de raça pura, o ser judeu e a geopolítica, como a suposta aliança com os japoneses), ética (Jojo deveria denunciar ou não a sua família por ter escondido Elsa?), circulação da informação (todos conteúdos panfletários, livros queimados e a pedagogia hitlerista) e o peso dos documentos em uma sociedade (o sigilo como sobrevivência e resistência).


Uma das ricas referências é o personagem Capitão K, interpretado por Sam Rockwell. No filme, o oficial é o responsável por treinar as crianças e jovens e transformá-los em fanáticos defensores do regime nazista. Todavia, em diferentes momentos, Capitão K se mostra como alguém anti-nazista, estando ali apenas cumprindo uma função dadas às circunstâncias. O filme não explora em profundidade as crises de consciência da personagem e os motivos de seguir como oficial de Hitler, mas dá pistas quanto ao que ele escondia: uma possível homossexualidade, conhecimento sobre pessoas e ações de resistência (que ele não denunciava), ironia sobre sua própria condição de professor da juventude nazista, além de verdadeiro carinho por Jojo e admiração por sua mãe, Rosie, papel de Scarlett Johansson. Em nossa análise, Capitão K sintetiza os dramas vividos por Josef K, personagem literário de O Processo, de Kafka.


No fim, Jojo Rabbit ensina que o ódio é construído politica e socialmente: pelo olhar de uma criança e através de seu encontro com Elsa, a judia inofensiva, o discurso do mal foi descontruído, abrindo espaço para a compaixão, o amor e a amizade.



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