A PENUMBRA ENTRE MEMÓRIA E ESQUECIMENTO: dialética da práxis na organização do conhecimento

Informação e Memória são conceitos fundamentais para o desenvolvimento científico, sendo que ambos adquirem contornos específicos em função do domínio no qual estejam inseridos, abrigando um largo repertório de definições. No campo da Ciência da Informação (CI), particularmente, habitam a centralidade de sua própria razão constituinte, já que são temáticas tratadas constantemente nesta área. Desta forma, torna-se relevante para essa reflexão explorar a seguinte questão: como a Organização do Conhecimento (OC) se reconhece diante das perspectivas teóricas dos estudos sobre memória?

Importa-nos abordar a memória, aquela que normalmente é adjetivada de “artificial” (sob as mais variadas concepções, tanto por um viés da Antiguidade, com Platão (2000), como da contemporaneidade, como aquele wieneriano (WIENER, 1968)), como a capacidade de conservar informações de cunho científico produzidas no passado, de modo a permitir sua evocação para que seja utilizada no presente, com vistas à geração de novas informações e/ou atualização das mesmas. Uma memória que se ocupa de guardar/armazenar informações passadas, e que, para além do importante registro histórico, servirão no presente para subsidiar novos estudos, impulsionando a criação de mais informações, que, novamente, deverão ser armazenadas, em um verdadeiro ciclo virtuoso, em prol da ciência.

De acordo com Gondar e Dodebei: “A memória é um fator de ligação psíquica coletiva em uma sucessão que visa neutralizar os efeitos da interrupção de uma trama; só quando a memória se torna objeto de uma gestão cultural é que pode produzir a aparência de ordem. Instituir, portanto, é ordenar. Mas a memória possui também algo de acidental, de circunstancial, já que não é apenas um meio de consagrar a continuidade, a duração, ou ainda de criar vínculos” (GONDAR; DODEBEI, 2005, p.17).

A memória de alguma forma requer um trabalho de reconhecimento e reconstrução que atualiza os quadros sociais nos quais as lembranças podem permanecer e, então, articular-se entre si. Ela se configura na capacidade de adquirir, armazenar e recuperar informações disponíveis, seja internamente, no cérebro, seja externamente, em dispositivos artificiais. (IZQUIERDO, 1983).

Dessa forma, a memória está estritamente vinculada à ideia de “recordação”, o que implica preocupações com procedimentos anteriores ao armazenamento, com a organização da informação inscrita em um suporte, genericamente, tratado como “documento”, de forma a permitir esse retorno do conteúdo pretérito ao presente para novos usos. Em uma palavra, sua recuperação.

A recuperação da informação se encontra inserida no rol dos procedimentos adotados para se obter o conteúdo de interesse dos usuários. Esse processo lida, diretamente, com mecanismos de esquecimento uma vez que no momento em que a informação é tratada, com vistas a sua representação, é necessário selecionar as partes (no caso da representação descritiva e da elaboração de resumos) e os assuntos (no caso da representação temática) mais significativos do documento.

Com o avanço das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) e a emergência da sociedade da informação, o desenvolvimento dos Sistemas de Recuperação da Informação (SRIs) fica ainda mais em evidência. Desta forma, no sentido de responder exatamente às necessidades dos usuários, buscam-se estratégias para a eficácia na recuperação da informação, ou seja, uma recuperação mais coerente e eficiente e, fundamentalmente, que seja, em termos sociais, contextual e transformadora. Essa eficiência depende, diretamente, dos processos de representação da informação, e da dialética entre memória e esquecimento.

Algumas fontes:

GONDAR, Jô; DODEBEI, Vera. O que é memória social? Rio de Janeiro: Contracapa / PPGMS, 2005, p.11-27.

IZQUIERDO, Iván; BEVILAQUA, Lia R. M.; CAMMAROTA, Martín. A arte de esquecer. São Paulo: Estud. av., v. 20, n. 58, dez., 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ea/v20n58/22.pdf >. Acesso em 27 maio 2016.

PLATÃO. Fedro ou Da Beleza. Liboa: Guimarães Editores, 2000.

WIENER, Norbert. Cibernética e sociedade: o uso humano de seres humanos. São Paulo: Cultrix, 1968.

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