A linguagem como terceira margem: documento, neodocumentação e vivência

Para Lund (2009), a teoria brietiana do documento tem uma relação direta com a semiótica de Charles S. Peirce (1839-1914), principalmente, com relação aos seus três tipos de signos: ícone, índice e símbolo.

Os ícones são tratados como semelhanças; os índices, como indícios que mostram algo sobre as coisas; por fim, encontramos os símbolos ou sinais gerais, que se associam aos significados pelo uso – estariam aqui a maioria das palavras, frases, discursos, livros, bibliotecas. Retomemos o pensamento foucaultiano. Como aponta Foucault (2002, p. 48), no contexto do século XVI, linguagem e natureza são noções que se entrecruzam e não podem ser desligadas uma da outra. Em outras palavras, linguagem é natureza. Deste modo, animais, plantas ou estrelas são, antes de coisas, um complexo de manifestações simbólicas, derivadas das afinidades e das conveniências da linguagem.

Pensar a condição simbólica da linguagem leva-nos a rever os pressupostos do documentalismo presente em Otlet (1934) e principalmente em Briet (1951). A possibilidade aberta pela famosa abordagem brietiana para explicação do conceito de documento, utilizando para tal o antílope, conduz-nos à virada no olhar documentalista. Se seguimos os passos do neodocumentalista Lund (2009), a “Briet semióloga” – e, neste caso, por que não, pragmatista – nos permite perceber que há uma construção simbólica dos documentos antes de serem documentados.

O mesmo poderia ser dito: há uma “documentação prévia” – aquilo que em Wittgenstein (1979) já deve estar preparado na linguagem –, seguida de um conjunto de práticas documentárias que não podem ser abarcadas no tempo, como a primeira. Não sabemos precisamente quando nasce o documentado (pois a institucionalização não é um congelado, é apenas uma outra institucionalização), nem quando ele deixará de o ser, pois a “realidade” como “manifestação do homem” se dá a partir do momento em que usamos a linguagem para construí-lo.

A terceira margem do antílope é sempre esta margem por vir que traz coisas dos desvios e dos obstáculos anteriores (de um tempo imemorial): trata-se de um complexo de dispositivos móveis, uma teia agitada que se estabiliza apenas em momentos de poder consensual que, em geral (mas nem sempre) tratamos por instituições (aqui, para a visão brietiana, teríamos, enfim, o primeiro documento). Não, o documento já chega documento ao documentalista – e sofrerá, agora, uma nova transdocumentação, posto que cada nova apropriação funda um novo documento dentro do documento (um livro sobre o livro, diria Paul Otlet). A “gramática” que a indexicalidade promove é, sempre, uma “gramática por vir”, transversal e ordinária.

Algumas fontes

BRIET, S. Qu'est-ce que la documentation? Paris: Éditions Documentaires Industrielles et Técnicas, 1951. BUCKLAND, M. Information as thing. Journal of the American Society of Information Science, v. 42, n. 5, p. 351-360, jun. 1991. CAPURRO, R.; HJORLAND, B. The concept of information. Annual Review of Information Science and Technology, v. 37, p. 343-411, 2003. ESTIVALS, R. A dialética contraditória e complementar do escrito e do documento. R. Esc. Bibliotecon. UFMG, Belo Horizonte, v. 10, n. 2, p. 121-152, set. 1981. FOUCAULT, M. et. al. Estruturalismo e teoria da linguagem. Petrópolis: Vozes, 1971. FROHMANN, B. Documentation redux: prolegomenon to (another) philosophy of information. Library Trends, v. 52, n. 3, p. 387-407, win. 2004. FROHMANN, B. Revisiting “what is a document?” Journal of documentation, v. 65, n. 2, p. 291-303, 2009. FROHMANN, B. Reference, representation, and the materiality of documents. In: Colóquio científico internacional da Rede MUSSI Mediações e hibridações: construção social dos saberes e da informação. Anais... 2011. Toulouse: Université de Toulouse 3, 2011. JACOB, C. Prefácio. In: BARATIN, M.; JACOB, C. O poder das bibliotecas: a memória dos livros no Ocidente. Rio de Janeiro: ed. UFRJ, 2008. p. 9-17. LUND, N.W. Document Theory. ARIST, v. 43, n.1, p. 1-55, 2009. LUND, N.W. Document, text and medium: concepts, theories and disciplines. Journal of Documentation, v. 66, n. 5, p. 734-749, 2010. OTLET, P. Traité de documenatation: le livre sur le livre: théorie et pratique. Bruxelas: Editiones Mundaneum, 1934. RANGANATHAN, S.R. As cinco leis da Biblioteconomia. Brasília: Briquet de Lemos, 2009.

SALDANHA, G. O fabuloso antílope de Suzanne Briet: a análise e a crítica da análise neodocumentalista. In: XIII ENANCIB - Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação, 2012, Rio de Janeiro. Anais do XIII ENANCIB - Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2012. v. 1. WITTGENSTEIN, L. O livro azul. Lisboa: Ed.70, 1992. WITTGENSTEIN, L. Investigações Filosóficas. 2o ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

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