ÓrbitaLIS n.30: Quem é Quem?

"Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma." — José Saramago (1998, p. 62)

[...] não encontrei/ pensei: se eu não tivessse me lembrado de que a frase não era minha/ ela seria minha?/ pensei: se eu me lembrasse onde li todas as frases que escrevi/ alguma seria minha? [...]” — Ana Martins Marques (2015, p. 25)

O método biográfico, assim como seu produto, as biografias e suas potencialidades narrativas, descritivas e cronológicas, representam, para o campo científico, uma fonte direta e indireta de reflexão. Como aponta Goldenberg (2004) em sua análise das metodologias em ciências sociais, tal método comporta duas direções confluentes: o olhar sobre o indivíduo em sua singularidade, e o olhar sobre o sujeito inserido em um dado contexto social. Assim, o método biográfico nos permitiria "conhecer o social partindo-se da especificidade irredutível de uma vida individual" (GOLDENBERG, 2004, p. 37).

Um exemplo clássico do método aplicado às ciências sociais, segundo a autora, está na obra Norbert Elias, "Mozart: sociologia de um gênio", fonte para compreender como o contexto social molda uma vida, interfere nos percursos do sujeito. Para todo e qualquer campo, como o campo musical no âmbito mozartiano, a biografia demonstra formas de construção não apenas de trajetórias acadêmicas, mas de consolidação do próprio discurso epistêmico de uma dada ciência.

Em Biblioteconomia e Ciência da Informação, encontramos distintas fontes biográficas para retratar os itinerários individuais, fontes estas que, por sua vez, são diretamente matéria-prima para a compreensão do destino da epistemologia do campo, intervindo, por sua vez, nas escolhas dos próprios artífices em suas vidas particulares. Uma rica fonte de reflexão online para as biografias no campo biblioteconômico-informacional está no portal Savoirs CDI (Recursos profissionais para os docentes-documentalistas), organização francesa com foco na formação continuada de bibliotecários, documentalistas e cientistas da informação.

O portal pode ser acessado em: <http://www.reseau-canope.fr/savoirscdi/>. Dentre as ricas informações atualizadas, está o repertório "Les penseurs 'modernes' de l'information, de la documentation et de la pédagogie". A partir desta fonte, conhecemos um interessante cruzamento de "biografias de clássicos" e "bibliografias de contemporâneos". Cada breve verbete-biografia é redigido por um especialista no campo, em geral, um estudioso da obra do biografado. A observação sobre esse percurso nos demonstra como a dinâmica das vidas se estabelece no campo científico no jogo de espelhamento eu-campo, o sujeito e o saber em sua dinâmica coletiva, mutuamente se influenciando. Abaixo, selecionamos três registros biográficos pouco conhecidos do público brasileiro em Biblioteconomia e Ciência da Informação para conhecer o portal.

Isaac Casaubon (1559 - 1614)

Filólogo, atuará diretamente na análise documentária e na avaliação da informação. Para Umberto Eco, trata-se de uma mente brilhante, que leva o autor a adotar o seu nome para a personagem principal de O Pêndulo de Foucault. Nascido em Genebra e falecido em Londres, Casaubon é um humanista protestante que atuou como editor de textos antigos e bibliotecário. Seu modo de analisar e criticar os textos pressupõe uma importante teoria da "incredulidade" para um contexto marcado pelo dilema da fé.

Acesse a página com o registro biográfico AQUI.

Vassily ​Vassilievich Nalimov (1910 – 1997)

Cientista russo conhecido no domínio de cientometria, Nalimov criará um colégio invisível com foco na discussão e nas experiências da cibernética, atuando com diferentes disciplinas, da matemática à psicologia. As noções de previsão, de incerteza e de medição serão centrais em seu pensamento, bases para suas reflexões cientométricas. É aqui que estatística, cibernética e documentação se cruzam, no intuito de compreender os rumos da produção científica. Seus trabalhos sobre índices de citação e economia das publicações levarão-no ao contato com o renomado Eugène Garfield. O modo de pensar e suas proposições levam alguns autores a afirmar ser Nalimov um dos precursores do modelo de Ciência da Informação estabelecido nos Estados Unidos.

Acesse a página com o registro biográfico AQUI.

Hippolyte Sebert (1839-1930)

O contexto da "grande marcha da documentação", em geral identificado pelas obras de Henri La Fonttaine e Paul Otlet, reúne um grupo enorme de atores das mais diferentes nacionalidades, formações e contextos no final do século XIX. Tratava-se, claramente, de uma "questão de fim de século" a preocupação em organizar o conhecimento registrado mundial e compartilha-lo. Eis a presença de um general, Sebert, especializado em mecânica de armas, que será um dos responsáveis centrais por disseminar as propostas de Otlet para o mundo francês, ou seja, para além da Bélgica. Apesar da profissão, jovem soldado, futuro general, será marcado por uma vida em prol da luta pela paz, compartilhando com o movimento documentalista o ideal do internacionalismo e do pacifismo, tendo como método o próprio conhecimento disseminado em rede. Assim, Sebert será o diretor do Bureau Bibliographique de Paris, fundado em 1898, agência fundamental para os sucessos alcançados pelo Instituto Internacional de Bibliografia em suas primeiras décadas.

Acesse a página com o registro biográfico AQUI.

REFERÊNCIAS

GOLDENBERG, Sandra. A arte de pesquisar: como fazer pesquisa qualitativa em Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Record, 2004.

MARQUES, Ana Martins. Boa ideia para um poema. In.: ______. O livro das semelhanças. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

SARAMAGO, José. O conto da ilha desconhecida. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

SAVOIRS CID. Disponível em: <http://www.reseau-canope.fr/savoirscdi/>. Acesso em 06 mar. 2018.

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