1968, Ciência da Informação: 50 anos de marxismo, luta social e teoria crítica

Diários da travessia... Notas sobre a crítica da epistemologia histórica em curso...

Por que apenas aceitar a crítica da definição neoliberal de Ciência da Informação como única abordagem crítica? Por que são tão silenciosas as epistemologias históricas que possibilitam à crítica sua materialidade epistêmica socialmente válida? A construção epistemológica do campo informacional, como grande parte de todas as esferas da vida social no Ocidente, ganhou a face hegemônica do angloamericanismo: as alternativas passaram a ser interpretadas como anomalias epistêmicas no plano profundo kuhniano, ou seja, doenças ou sequelas do não-ajustamento à "razão que ganhou".

O papel de uma epistemologia histórica, crítica e reconstrutora do real "perdido", um modo de pensar e de fazer o discurso epistêmico informacional como forma de luta e de permanente reconstrução. Este percurso só poderia se dar na e pela história, porém dentro da e sob os dilemas da própria epistemologia informacional. Suas construções de fundo angloamericano já nos dariam das todas as pistas necessárias para a viagem: nascem ali, nas disputas institucionais, profissionais, terminológicas, as lacunas para a revisão crítica de uma epistemologia histórica delicadamente inventada.

No entanto, as históricas das tensões locais no território estadunidense foram transpostas para outras contextualidades apartadas de tais dilemas. Assim, apagaram-se escolas, tendências e, principalmente, posicionamentos críticos aqui e acolá. Outras tradições e, fundamentalmente, outras línguas da ciência tiveram seu discurso configurado como não identitário, não científico, não partícipe do real informacional.

Dentre as tantas possibilidades de encontrar as "filosofias do não" (no tom bachelardiano) para contrapor tais forças da anglofonia estava o pensamento francófono oriundo da obra de Robert Estivals. Eis o périplo iniciado em 2014...

Em 7 anos de participação na Rede Franco-Brasileira de Mediações e Usos Sociais dos Saberes e da Informação (Rede Mussi), projeto de diálogo e de produção internacional iniciado em 2008 por Regina Marteleto, pelo Brasil, e Viviane Couzinet, pela França, a procura pela compreensão do pensamento epistemológico informacional francês ganhava curiosidades cada vez mais intensas.

Era o verão europeu em Paris. Após quase um mês em busca dela, de uma certa Revue de Bibliologie, marca de uma de tais tantas-quantas margens de recondução do leito epistemológico-histórico da Ciência da Informação, os resultados foram pífios. Então, ao lado da amiga eterna de Divinópolis, Lilian Alves, telefonamos para a Association Internationale de Bibliologie (AIB).

Uma voz educada e prestativa nos atendeu: Danièle Estivals, pesquisadora, editora e companheira de Robert. O diálogo foi rápido: desejamos comprar números históricos da Revue de Bibliologie. Mas a resposta não foi direta. Uma pergunta se colocou como retorno à objetividade vaga da primeira questão: Quem são vocês...? E mais outra... De onde vem? Gostaríamos de saber sobre o interesse na publicação...

Duas semanas depois estávamos na casa de Robert e Danièle. E diante da coleção completa da revista...

Projetada em 1967 com a primeira publicação-piloto, a Revue de Bibliologie é fruto de uma série de problematizações entre teoria do conhecimento e teoria da arte, a partir das noções fundamentais legadas por Gabriel Peignot e por Paul Otlet, figuras centrais para a invenção do discurso dito mundial sobre a Ciência da Informação. A influência de Peignot sobre Otlet é profunda: em grande medida, trata-se da (vasta) obra que apresenta ao advogado belga no âmbito da francofonia não apenas as centenas de direções aplicadas para uma futura "bibliografia de fundo documentalista", mas fundamentalmente a discussão epistemológica é a força de tal leitura... Otlet recolhe os grandes estratos de definição de uma teoria geral do conhecimento para os saberes registrados via a abordagem peignotiana do mundo dos artefatos.

O primeiro número da série é, pois, aquele publicado em 1968, ano de um dos mais afamados artigos de tentativa de definição da Ciência da Informação, o texto de Harold Borko, que repercute os trabalhos de Robert Taylor no início da mesma década. Na primeira edição da Revue de Bibliogie, então denominada Schéma et Schématisation (repercutindo os conceitos centrais de sua trajetória), estão as marcas de uma profunda teoria do conhecimento... Junto de Abraham Moles e outros colaboradores, Rorbert Estivals procura compreender o papel do esquema e da esquematização na vida social, perpassando a filosofia, a psicologia, a sociologia, a linguística, e outros territórios de indagação epistêmica. É o primeiro passo de 50 anos de perguntas, de reflexões teóricas e de embates empíricos, orientados cada vez mais para a compreensão de uma socioepistmeologia, de fundo marxista, crítica ao modelo neoliberal que avança junto da história da Revue de Bibliologie.

Estivals está diante dos dois: Otlet e Peignot. Ele parte do legado de tais autores, e conjuga arte, marxismo, crítica social, estudos comparados e internacionalismo para constituir um modelo epistemológico avançado, inquietante. Tal modelo atravessa os mais comuns conceitos do campo informacional mundial, da bibliometria ao estudo histórico das bibliotecas, das formações em Biblioteconomia às instituições informacionais das mais diversas naturezas... Uma epistemologia tecida sob a "desconhecida" noção de Bibliologia... elemento fundacional do pensamento de Peignot e de Otlet...

Após a visita de 2014, inicia-se a minha investigação "bibliológica" e os diálogos do Fórum Internacional A ARTE DA BIBLIOGRAFIA se tornaram centrais para o primeiro grande dilema epistêmico-histórico: a relação entre Bibliografia e Bibliologia. O percurso aberto estava justamente em compreender o modo como se constituía a relação do pensamento bibliográfico-bibliológico entre Peignot, Otlet e a geração de 1968...

A viagem de retorno à epistemologia histórica aguardava também a viagem de retorno ao coração de tal geração... Reencontrar Estivals e a teoria histórico-crítica tecida sob a produção da Revue de Bibliologie e seu grande conceito: esquema. Em sala de aula na cidade do Rio de Janeiro, em outubro de 2016, no Mestrado Profissional em Biblioteconomia, ministrando a disciplina Fundamentos e Perspectivas da Biblioteconomia, justamente no tópico "Bibliologia", eis que através de um aluno a notícia da morte de Robert é comunicada. Fazia alguns meses de seu falecimento, no dia 10 de agosto.

O percurso inconcluso não estaria encerrado: em 2017 parto para Toulouse, cede do maior fundo epistemológico da Ciência da Informação francesa, o Fonds Meyriat (este, um dos teóricos de diálogo intenso com Estivals, co-fundador das Sciences de l'information et communication na França), coordenado pela legatária Profa. Dra. Viviane Couzinet, para iniciar o pós-doutorado com foco na construção de uma certa teoria do conhecimento que nos permitiria enxergar, como muitas outras, formas de fundamentação do campo informacional distintas, singulares e criticamente tecidas.

Nos desdobramentos da morte de Robert, entre 2016 e 2017, a Revue de Bibliologie é encerrada. Atualmente o Fundo Estivals está em processo de organização na Université de Bordeaux. Um vasto território documental, coberto por centenas de conceitos, está aberto, na produção estivalsiana e de tantos de seus colaboradores e interlocutores, para a permanente crítica da epistemologia histórica da Ciência da Informação em sua face internacional.

Para Danièle, Lilian e Robert...

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