Zubiri e Bourdieu no labirinto científico

Zubiri e Bourdieu podem ser considerados “companheiros de viagem”, segundo Guerrero Anaya (2016). Para esse autor, tanto Zubiri como Bourdieu estão de acordo sobre a “necessidade de eliminar uma leitura metafísica da ciência atual”. Concordam também que “o empirismo dominante no campo das ciências modernas não é solução dos problemas que surgem ao se pretender fundamentar as teorias e métodos científicos”.

Entretanto devemos salientar que os seus pontos de partida são distintos (GUERRERO ANAYA, 2006). Para Zubiri “o papel da filosofia não se limita a uma mera análise dos sistemas conceituais utilizados na ciência, sendo também necessário estudar as elaborações teóricas da razão científica desde uma perspectiva transcendental”. Nessa abordagem, não há uma divisão entre os âmbitos do conhecimento; ou seja, um imediato e meramente descritivo (fenomenologia) e outro mediato e construtivo (científico). Na perspectiva da filosofia da inteligência e da realidade de Zubiri, tanto os conteúdos imediatamente atualizados no campo de apreensão, como aqueles postulados pelas teorias são inteligidos como reais e suscetíveis à uma consideração transcendental pela filosofia (cf. ZUBIRI, 2011a).

Em Bourdieu, ao contrário, “será necessário uma ruptura, entre o que a percepção elabora e a teoria constrói, uma vez que a razão (incluindo a científica), construída a partir de uma incessante controvérsia com os interesses extra-científicos (filosóficos políticos, etc.) “é conquista, construção e uma comprovação contra percepções, preconceitos e até mesmo a linguagem”. (GUERRERO ANAYA 2006, p.19).

Em comum, no entanto, ambos buscaram dar uma solução para o problema intelectual do homem moderno. Zubiri postulou que o homem moderno, por conta do nivelamento positivista do conhecimento, a desorientação e a perda da vida intelectual abandonou uma vida intelectual autêntica (ZUBIRI, 2010). A sua solução, a recuperação da vida intelectual através do esforço pessoal, em relação especificamente a ideia de verdade, a qual coincidiria com a realidade e o ato de intelecção com o ato primordial de conhecer (BALLESTA, 2013).

É pela descrição dos momentos estruturantes do conhecer humano que Zubiri aponta o que é o conhecimento e quais são os termos e condições da sua produção. Com isso, ele nos possibilita uma reflexão sobre a capacidade que cada indivíduo possui de conhecer as coisas (a realidade) e criar um pensamento racional em qualquer campo do conhecimento, onde o homem, como “animal de realidades” (ZUBIRI, 2011a; 2011b; 2011c), deverá se ater a realidade e, a partir dela, escolher a melhor possibilidade para se realizar na plenitude de sua condição humana, ou seja, em suas dimensões individual, social e histórica (Cf. ZUBIRI, 2006) .

Em Bourdieu, será a construção de uma sociologia reflexiva que se sabe e se situa como parte de um “campo relacional” (GIDDENS; BOURIDIEU, WEBB et. al. 2004:74 apud SCARTEZINI, 2011), que permitirá a construção de uma verdade e/ou um conhecimento enquanto prática social.

Em síntese, Bourdieu denuncia os “jogos de poder” envolvidos no ato e na posição dos agentes no campo, e, Zubiri aponta os “jogos de conceitos” e as limitações de uma inteligência meramente emissora de conceitos e definições, distanciados do fundamento transcendental da realidade.

Posições, em suma, que embora distantes nos seus processos e perspectivas se aproximam enquanto um provocativo e fértil estímulo para a discussão do status e de uma definição do que vem a ser uma Ciência da Informação, justamente naquilo que põem em evidencia a necessidade de olhar o homem, seja na definição e fundamentação da sua inteligência, ou mesmo da sua posição e economia em um campo científico compreendido enquanto uma prática social.

REFERÊNCIA

SANTOS, A. T. C. ; Miguez, G. . A Ciência da Informação enquanto ciência social interdisciplinar: as contribuições de Zubiri e Bourdieu. In: Elaine Rosangela de Oliveira Lucas, Murilo Artur Araújo da Silveira. (Org.). A Ciência da informação encontra Pierre Bourdieu. 1ed.Recife: Editora Universitária UFPE, 2017, v. , p. 439-454.

Outras fontes

ARAÚJO, Carlos Alberto A. A ciência da informação como ciência social. Ciência da informação, Brasília, v. 32, n. 3, p. 21-27, 2003.

_____. O que é Ciência da Informação?. Informação & Informação, v. 19, n. 1, p. 01-30, 2013.

BALLESTA, Pedro Abellán La Dedicación del Hombre a la Vida Intelectual Revista Portuguesa de Filosofia T. 69, Fasc. 1 (2013), pp. 165-180

BORKO, Harold. Information science: what is it? American Documentation, Washington, v. 19, n. 1, p. 3-5, jan. 1968.

BOURDIEU, Pierre. O campo científico. In: ORTIZ, Renato. Pierre Bourdieu: sociologia. São Paulo: Ática, p. 122-155, 1983.

____. Cosas dichas. Barcelona: Gedisa, 1988

_____. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Russel, 2002.

_____. Os usos sociais da ciência: por uma sociologia do campo científico. São Paulo: Ed. Unesp, 2004.

_____. Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo: Ed. da UNESP, 2004.

_____; WACQUANT, Louis. An invitation to reflexive sociology. Chicago: The University of Chicago Press, 1992.

_____; _____. Una invitación a la sociología reflexiva. Siglo XXI Editores, 2005.

BORKO, Harold. Information science: what is it? American Documentation,Washington, v. 19, n. 1, p. 3-5, jan. 1968.

CAPURRO, Rafael. Epistemologia e ciência da informação. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 5., 2003, BeloHorizonte. Anais... Belo Horizonte: Associação Nacional de Pesquisa e PósGraduaçãoem Ciência da Informação, 2003.

_____. Pasado, presente y futuro de la noción de información. In: ENCUENTRO INTERNACIONAL DE EXPERTOS EM TEORÍAS DE LA INFORMACIÓN, 1, 2009. Anais... Leon: Universidad de Leon, 2008.

CORRÊA, Maria Amelia Ayd. Notas sobre Bourdieu e a produção do conhecimento. Revista Vértices, 2010, v. 5, p. 33-42, 2010.

COSTOYA, Manuel Mejido. Beyond Nomological, Hermeneutic, and Dialectical Knowledge: Zubiri’s Radicalization of Scholastic Realism and the Hidden Ground of the Human-Social Sciences. The Xavier Zubiri Review, Vol. 6, 2004, pp. 61-71.Disponível em: http://www.zubiri.org/general/xzreview/2004/web/mejido_2004.pdf . Acesso em 19 set. 2014.

EGAN, Margareth E.; SHERA, Jesse H. ; Foundations of a theory of bibliography. Library Quarterly, v.22, n.2, p.125-137, 1952.

FERRAZ, Antonio. Filosofía, ciencia y realidad: apuntes zubirianos. The Xavier Zubiri Review, v. 7, 2005.

GIBERT GALASSI, Jorge. Perspectivismo y verdad en sociología: Bourdieu y Giddens. Cinta moebio, Santiago , n. 52, p. 69-78, marzo 2015 . Disponible en <http://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0717-554X2015000100006&lng=es&nrm=iso>. accedido en 08 mayo 2017. http://dx.doi.org/10.4067/S0717-554X2015000100006.

GONZALEZ DE GOMEZ, Maria Nélida. Para uma reflexão epistemológica acerda da Ciência da Informação. Perspectivas em Ciência da Informação, v. 6, n. 1, 2001.

GUERRERO ANAYA, Luis José. Fundamento y funcionalidade de la ciência em Pierre Bourdieu y Xavier Zubiri. Jalisco, 2006. Dissertação (Mestrado em Filosfia Social) – Departamento de Filosofia e Humanidades, Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Occidente (ITESO), 2006.

MARTELETO, Regina; SALDANHA, Gustavo. Informação: qual o estatuto epistemológico? In: MORIGI, Valdir; Jacks, Nilda; GOLIN, Cida (Org.). Epistemologias, comunicação e informação. Porto Alegre: Sulina, 2016. P. 69-89

MELOGNO, Pablo. Epistemología de las ciencias de la información: una perspectiva no fundacionista. Palabra clave, Ensenada , v. 2, n. 2, p. 11-23, abr. 2013 . Disponible en <http://www.scielo.org.ar/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1853-99122013000100002&lng=es&nrm=iso>. accedido en 02 mayo 2017.

MOSTAFA, Solange Puntel. Epistemologia da Biblioteconomia. Tese (Doutorado em Educação),Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo: [s.n], 1985. 140 f.

_____. Enfoques paradigmaticos da bibliotecología: unidade na diversidad ou diversidad na unidad. Investigación Bibliotecológica, v. 10, n. 21, p. 18-21, 1996.

_____. Ciência da Informação e suas relações com outras áreas. 2005. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL. Marília, 2005. Anais... Disponível em: <https://www.marilia.unesp.br/Home/Extensao/CEDHUM/texto03.pdf>. Acesso em: 10 abr. 2017.

SCARTEZINI, Natalia. Introdução ao método de Pierre Bourdieu. Cadernos de Campo: Revista de Ciências Sociais, v. 14, 2011.

SHERA, Jesse. The Foundations of Education for Librarianship. New York: Beckerand Hayes, 1972.

Posts Em Destaque
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square
Siga

© 2013 Ecce Liber: Filosofia, Linguagem e Organização dos Saberes. Desenvolvedor: Diogo Xavier da Mata.

Centro de Estudos Avançados em Ciência da Informação e Inovação (CENACIN - IBICT)

CAPES - CNPq - FAPERJ