Transculturalidade e estudos informacionais

Da crítica da cultura e da verdade na Ciência da Informação

Tornar mais “cultural” a epistemologia social? Transversalizar suas ações programáticas...? Eleger o simbólico e sua manifestação contingente como sentença a ser refletida? Eis um potencial de crítica cultural aberto pelo olhar de Soraj Hongladarom em Cros-cultural epistemic practices. Influenciador de Rafael Capurro, o olhar de Hongladarom leva o pesquisador da Library and Information Science em seus contextos internacional e regional a repensar o marco epistemológico do campo informacional e seus enraizamentos.

Publicado no dossiê de reflexão sobre uma certa histórica e revolucionária social epistemlogy para os estudos informacionais, justamente na revista científico-filosófica de mesmo nome, em 2002, o artigo nos coloca diante de outras margens epistêmicas pelo tom da reflexão cultural, ou, especificamente, transcultural. Trata-se da possibilidade de não abandonar o global, mas compreende-lo a partir das contingências do local.

Uma dada consciência das-com-sobre outras culturas será uma das bases da fundamentação da Ética Intercultural da Informação de Rafael Capurro, conceito central na obra e no pensamento do filósofo. A linha metodológica de Hongladarom segue a trilha de uma demanda etnográfica da epistemologia: a reestruturação da noção de verdade, não tomada como objetivo final da navegação epistêmica. Isso pode ser antevisto, em uma sociologia do conhecimento, em Bruno Latour, em Ludwik Fleck, em Pierre Bourdieu e na lógica das crenças da Estrutura das Revoluções Científicas de Thomas Kuhn.

As evidências da reflexão (ou a carga de demonstrabilidade de seu método) estão em Hongladarom no olhar sobre a cultura Thai, oriunda da Tailândia. A partir das especificidades do modo de pensar-falar desta expressão cultural, o pesquisador aponta a perspectiva da diversidade sob a via da compreensão de um olhar transcultural do real. Trata-se de observar a existência (convivência) de práticas transculturais que tem como elo a capacidade de compreender e conjugar com o outro a construção do real.

As condicionantes de uma vertente pragmático-hermenêutica são em grande parte apontadas não apenas por Rafael Capurro na epistemologia informacional, como também pela própria social epistemology de Jesse Shera, como Hongladarom atesta. Elas são, no entanto, referendadas pelo horizonte da transculturalidade como fundamento epistêmico para os estudos informacionais: trata-se de um solo contingente de linha reflexiva e de experiência empírica (dada pela noção de “práticas transculturais”. Sua síntese está na assertiva de que as culturas têm vários subsistemas de eliminação da complexidade e são capazes de avançar na procura por sistemas complexos coerentes em suas formas de transmissão e de reconstrução.

De um lado, com Hongladarom estamos diante do risco da destituição da verdade e dos perigos do relativismo como (falsa) forma de vida. Por outro lado, a perspectiva da transculturalidade visa colocar em foco a diversidade das culturas em um mundo opressor, um contexto que objetiva sua nulidade em prol do objetivo sumário da verdade. Seu foco, para o cientista e o profissional da informação, está em um simples cenário teórico e empírico: abrir as janelas para a perspectiva dos estudos locais e suas demandas específicas e urgentes.

Fonte

HONGLADAROM, Soraj. Cross-cultural epistemic practices. Social Epistemology, v. 16, n. 1, p. 83–92, 2002.

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