Sob olhos transformados, a antropofagia encontra a Filosofia da Informação e a OC

Vinícios Souza de Menezes

Doutor em Ciência da Informação (PPGCI IBICT UFRJ)


No quadro da ciência da classificação, a filosofia reencontra assim o

seu lugar.

Olga Pombo,

Da classificação dos seres à classificação dos saberes (1998, p. 13)


O perspectivismo poderia ser mesmo visto como uma reduplicação ou

‘intensivização’ da libido classificatória, na medida em que seu

problema característico é reformulável nos seguintes termos: o que

acontece quando o classificado se torna o classificador?

Eduardo Viveiros de Castro,

Metafísicas canibais: elementos para uma antropologia pós-estrutural

(2018, p. 83)



No dia 4 de junho de 2021, aconteceu o Seminário de Pós-doutorado intitulado Pensamento ameríndio, Organização do Conhecimento, Filosofia da Informação: uma perspectiva antropofágica nos estudos informacionais: agenciamentos programáticos. O seminário foi fruto do estágio de pós-doutorado do ecceliberiano Vinícios Souza de Menezes no Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação (PPGCI) do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) em convênio com a Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO UFRJ). O seminário baseou-se no relatório final de pós-doutorado denominado A hybris classificatória da organização do conhecimento na filosofia da informação: uma perspectiva antropofágica nos estudos informacionais. O seminário ainda contou com a participação das debatedoras: Luciana Gracioso (UFSCAR), Maria Nélida Gonzalez de Gómez (IBICT) e Solange Puntel Mostafa (USP – Ribeirão Preto), além da supervisora do estágio pós-doutoral Rosali Fernandez de Souza e do co-supervisor Gustavo Silva Saldanha. Este seminário é o tema dessa Produção em perspectiva.


No livro Meu destino é ser onça, Alberto Mussa (2011) restaura o corpo de mitos dos povos Tupinambá que habitavam o litoral de Pindorama quando do mau encontro. O mal chegara com suas xawaras (fumaças-epidemias) em nossas matas. Os lusíadas acentuaram o mal ao instaurarem em terras ameríndias o império do um – da unidade

una, única e unívoca – e, com isso, intensificaram os valores canibais inscritos nos mitos Tupinambá. “O mal é o um”, nos diz Pierre Clastres (2012, p. 188). Perante a possibilidade privada de chegar à terra sem mal, por não haver mais quem conhecesse o caminho, turvado pela bruma da maldade e da uniformidade de seus habitus, a solução Tupinambá – o seu destino-onça – foi devorar o outro inimigo, alterar-se para nutrir-se

de vida e capacitar-se para, diante da provação do mal, poder degluti-lo e livrar das veredas do grande sertão, os caminhos fúnebres da terra sem mal. Garantir o acesso à terra sem mal de alegria e prazer é a luta do jogo canibal. O ato a ser vingado é um ato negativo e o canibalismo é uma prática simbólica de transfiguração do mal. O objetivo primaz do canibalismo é eliminar do mundo o mal e encontrar no um, o seu outro. Um Deus canibal é um outro Outro (CASTRO, 1986, p. 525) e o espectro simbólico-cultural da antropofagia é um modo de aplacar o mal que ronda a geografia dos nossos conceitos. Uma antropofagia nos estudos informais tem por mirada devorar um do sentido que se encontra dissimulado nas camadas das nossas gramáticas.


O jogo canibal como um motivo simbólico do pensamento ameríndio atravessa a pesquisa, sobretudo para dizer algo a respeito das questões da Filosofia da Informação (FI) e da Organização do Conhecimento (OC). Inicialmente a pesquisa parte de uma questão logológica como chama Barbara Cassin (2005), especificamente do seu eixo filológico. A filologia que surgiu na tese e seguiu na pesquisa de pós-doutorado tem um direcionamento benjaminiano (2005) e agambeniano (2008, p. 146), em específico, quando este último diz que “a filologia é a donzela que, sem precauções dialéticas, beija na boca o sapo da práxis”. O ponto de partida que se fez surge de uma dupla sentença, a primeira proferida por Capurro e Hjørland (2007, p. 156) em O conceito de informação, a saber: “o prefixo in pode ter o significado de negação como em informis ou informitas, mas, em nosso caso, ele fortalece o ato de dar a forma a alguma coisa” e a segunda sentença de Maria Nélida González de Gómez (1999, p. 25) quando diz que a informação é um operador de relação. Sob os meus olhos transformados, o informe (informis) não esquadrinhado por Capurro e Hjørland é um signo da passagem ontológica “da supressão do em-si à lógica da relação” e a formulação de González de Gómez, através do olhar transformativo dos mundos ameríndios (KOPENAWA; ALBERT, 2015; KRENAK, 2019), auxilia a entender como o informe é um passageiro clandestino na história conceitual da informação. Deste ponto de partida, a pesquisa procura agenciar programaticamente a questão do informe com o Pensamento Ameríndio, a Organização do Conhecimento e a Filosofia da Informação em uma geo-estória menor do conceito de informação. Esses agenciamentos são programáticos, sínteses inacabadas que se bifurcam em planos a cada vez outros. Um plano de imanência é “ilimitado, informe, nem superfície nem volume, mas sempre fractal” (DELEUZE; GUATTARI, 1992, p. 46). Inspirado em Guimarães Rosa, chamei esta ambiência de sertão da informação (MENEZES, 2018) e esta fala contingencial do pós-doutorado buscou apresentar e colocar em diálogo alguns rastros sertanejos do informe e suas alterativas – alternativas, interativas e alterantes – antropofagias do Um.


Sob este ponto de vista, como seguidamente nos ensina Deleuze, precisamos recolocar os nossos problemas em outros termos. Desta maneira, o pensamento ameríndio ao qual sou-estou aparentado se apresenta como uma possibilidade deflexiva de dissipar e destituir a forma da máquina do desencantamento do outro que avança sistematicamente contra o mundo da vida. Os povos da floresta são comensais da forma. Semiófagos, devoram toda a pretensão esquemática do um do sentido. Como a antropogênese é um evento do sentido e o sentido é a forma informacional, os ameríndios são duplamente semiófagos e antropófagos da informação e o seminário dedicou-se a estudar as diversas e possíveis antropofagias informacionais.


Digerir os embaraços conceituais entre o documento (materialidade) e a

informação (imaterialidade) que fundou uma “filosofia da informação outra” (FROHMANN, 2004) e gestar, através da condição de possibilidade informe de ambos, os traços de uma “filosofia da informação outra outra” inscrita na virtual e arcaica palavra “livro”, conceito central em Paul Otlet (1934) e velado frente a miríade documental, é uma das tarefas assinaladas na pesquisa. Mirar feito crítico abaporu a perspectiva antropofágica da informação nas sendas da OC e da FI, marcadas pela hybris dos desenhos que recobrem as peles (biblion) ¹ ameríndias, classificadores do livro canibal, ou, do selvagem livro, arqueologicamente informe (THESAURUS LINGUAE LATINAE, 1934, p. 1474-1477; AGAMBEN, 2016, p. 84). O livro é informe, uma possibilidade pura, uma grande boca que pode receber e conter todas as coisas feito pessoas, mas que a nenhuma delas se reduz. Ao devorar e digerir, transforma-se, traduz o diferido digerido numa leitura menor (MOSTAFA, 2018), numa linguagem documentária menor (MOSTAFA; NOVA CRUZ, 2011) cujos afetos narram uma estória em tom menor.


Este livro selvagem mira traduzir, isto é, “instalar-se no espaço do equívoco e habitá-lo”; o equívoco, a anfibolia e a ambiguidade não são o que impede a relação, mas aquilo que a funda e a impele: uma diferença de perspectiva. Classificar é presumir que há desde sempre e para sempre um equívoco; é comunicar modos de produção de conhecimento pela diferença, em vez de silenciar o Outro ao presumir uma univocidade

originária e uma redundância última entre o que ele e nós estávamos dizendo (CASTRO, 2018, p. 90-91). Uma Filosofia da Informação Outra Outra do pensamento ameríndio já está escrita na corporalidade humana dos corpos ameríndios, nos sentidos de seus próprios sentidos. Falta-nos aprendermos a lê-la xamanicamente nos esquematismos do cosmos e a ouvi-la nas harmonias dos ritmos ancestrais.


Tornar o classificado classificador é a tarefa anti-narcísica que nos falta assumir.


¹ O biblion, dizia Derrida (2004, p. 21), “não significava primeiramente, nem sempre, ‘obra’ ou opus”, não estava vinculado a uma forma determinada (morphé), atualizada e efetuada na realidade, mas antes, dizia o “suporte particular de escrita” (hypokeimeinon), seja esta escrita linear (alfabética) ou não (como os grafismos ameríndios). Enfim, o biblion é a “pele” ou a “película” informe que suporta e possibilita potencialmente toda e qualquer escrita, todo e qualquer possível formato de livro. A esta ideia, Aristóteles (2010, §430a, p. 116) deu o nome de “grammatêion”.


Referências


AGAMBEN, Giorgio. El fuego y el relato. Madrid: Sextopiso, 2016.


AGAMBEN, Giorgio. Infância e história: destruição da experiência e origem da história. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.


ARISTÓTELES. Da alma. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2010.


BENJAMIN, Walter. Libro de los pasajes. Madrid: Akal, 2005.


CAPURRO, Rafael; HJØRLAND, Birger. O conceito de informação. Perspectivas em Ciência da Informação, v. 12, n. 1, p. 148-207, jan./ abr. 2007.


CASSIN, Barbara. O efeito sofístico. São Paulo: Ed. 34, 2005.


CASTRO, Eduardo Viveiros de. Araweté: os deuses canibais. Rio de Janeiro: Zahar, 1986.


CASTRO, Eduardo Viveiros de. Metafísicas canibais: elementos para uma

antropologia pós-estrutural. São Paulo: Ubu, 2018.


CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o estado. São Paulo: Cosac Naify, 2012.


DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? São Paulo: Ed. 34, 1992.


DERRIDA, Jacques. Papel-máquina. São Paulo: Estação Liberdade, 2004.


FROHMANN, Bernd. Documentation redux: prolegomenon to (another) philosophy of information. Library Trends, v. 52, n. 3, p. 387-407, 2004.

GONZÁLEZ DE GÓMEZ, Maria Nélida. O caráter seletivo das ações de informação. Informare, Rio de Janeiro, v. 5, n.2, p. 7-31, 1999.


KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã

Yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.


KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.


MENEZES, Vinícios Souza de. O sertão da palavra informação: o informe em língua de brincar. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 19., 2018, Londrina. Anais [...]. Londrina: UEL, 2018. Disponível em:

http://hdl.handle.net/20.500.11959/brapci/103643. Acesso em: 13 maio 2021.


MOSTAFA, Solange Puntel. Leitura menor: um conceito, um acontecimento. Biblioteca Escolar em Revista, v. 6, n. 2, p. 1-10, 2018.

MOSTAFA, Solange Puntel; NOVA CRUZ, Denise Viuniski da. Por uma linguagem documentária menor. In: BOCCATO, V. R. C.; GRACIOSO, L. S. (Org.). Estudos de linguagem em Ciência da Informação. Campinas: Alinea, 2011. p. 69-96.


MUSSA, Alberto. Meu destino é ser onça. Rio de Janeiro: Record, 2011.


OTLET, Paul. Traité de Documentation: le livre sur le livre: théorie et pratique. Bruxelas: Editiones Mundaneum, 1934.


POMBO, Olga. Da classificação dos seres à classificação dos saberes. Revista da Biblioteca Nacional de Lisboa, Lisboa, n. 2, p. 19-33, 1998.


THESAURUS linguae latinae. Leipzig: editvs ivssv et avctoritate consilii ab academiis societatibvsqve diversarvm nationvm electi, 1934. v.7.

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